Conde d’Eu: O mais brasileiro de todos os franceses

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Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans, nascido na França em 28 de abril de 1842, foi um Príncipe Francês, utilizando-se do título de Conde d’Eu, e Príncipe Imperial Consorte do Brasil.

Filho de Luís Carlos Filipe Rafael d’Orléans, Duque de Némours, seu avô paterno foi o último Rei da França, Luis Filipe I de Orléans. Príncipe francês de nascimento, recebeu o título de conde d´Eu.O príncipe recebeu uma educação refinada, vindo a aprender diversas línguas, como o latim, inglês, alemão, português e o francês, esta como língua materna.

O seu avô foi destronado graças à Revolução de 1848, e com apenas cinco anos de idade, Gastão partiu para o exílio na Grã-Bretanha, vindo a retornar a sua terra natal somente em 1878. Sua família logo se estabeleceu num antigo casarão chamado Claremont, na região sul da Inglaterra, onde viveriam por vários anos. Aos treze anos de idade, em 1855, iniciou a sua carreira militar seguindo o curso de artilharia, o qual concluiria na Escola Militar de Segóvia, Espanha, onde obteve a patente de capitão. Em 1857, perdeu precocemente a mãe, Vitória de Saxe-Coburgo-Koháry.

Após longos anos sofrendo problemas na fronteira com o Marrocos, devido aos constantes ataques às cidades espanholas na costa da África por parte de bandoleiros marroquinos, a Espanha decidiu declarar guerra ao país vizinho em 1859. O jovem Gastão foi enviado como oficial subalterno para participar do conflito ao lado das forças espanholas, que consistiam em cerca de 40 mil soldados, contra as tropas marroquinas, que por sua vez possuíam mais de 140 mil homens. O conde d’Eu participou das batalhas e após o término da Guerra do Marrocos, em 1860, retornou à Espanha com renome militar. Anos depois, foi contatado pelo tio, Rei Dom Fernando II de Portugal, que o incentivou a averiguar a possibilidade de casamento com uma das duas filhas do Imperador Dom Pedro II do Brasil. Aceitou a proposta, contanto que pudesse conhecê-las antes de tomar qualquer decisão. A irmã de D. Pedro II, D. Francisca de Bragança, princesa de Joinville, casada com Francisco d’Orléans, príncipe de Joinville e, portanto, tio de Gastão, assim o descreveu em carta ao imperador brasileiro: “Se pudesse agarrar este para uma das tuas filhas, seria excelente. Ele é robusto, alto, boa figura, boa índole, muito amável, muito instruído, estudioso, e, além do mais, possui desde agora uma pequena fama militar”.

Desembarcou no Rio de Janeiro em 2 de setembro de 1864 na companhia do primo, o Príncipe Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. Logo em seguida os dois primos se dirigiram ao Palácio de São Cristóvão para conhecer a Família Imperial Brasileira. No entanto, Gastão não se entusiasmou em relação às duas princesas, pois as considerou “feias”. De início, o jovem Conde d’Eu estava prometido a D. Leopoldina e seu primo a D. Isabel, mas após tê-los conhecido melhor, o Imperador D. Pedro II resolveu inverter os pares. Gastão foi agraciado com a grã-cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro pouco tempo após chegar ao Brasil e foi, dias depois, proposto como presidente honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O casamento com a Princesa herdeira do Trono ocorreu em 15 de outubro de 1864.

Décadas mais tarde, em 1892, Alfredo d’Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay, diria sobre o Conde: “[…] O Conde d’Eu, com todos os defeitos que lhe possam apontar, estremecia viva e sinceramente o Brasil e, acredito bem, ainda hoje o ame com intensidade e desinteresse”

O Conde d’Eu e a Princesa Isabel, estavam viajando pela Europa em lua-de-mel, quando forças paraguaias invadiram as províncias brasileiras de Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Dom Pedro II enviou uma carta ao casal em 1865 exigindo a presença de Gastão no Brasil e que se deslocasse para a cidade de Uruguaiana, no sul do país, para lá se encontrar com o Imperador, o Duque de Saxe e o Exército imperial. Uruguaiana havia sido conquistada pelo exército paraguaio e as tropas brasileiras, além das aliadas argentinas e uruguaias, haviam criado um cerco à cidade, esperando ou a rendição ou a derrota em batalha da força inimiga. O Conde foi nomeado comandante geral da artilharia e presidente da Comissão de Melhoramentos do Exército em 19 de novembro de 1865.

Por ser um oficial de alto escalão com suficiente prestígio e notória capacidade, foi convocado para liderar como comandante-em-chefe os exércitos aliados em 1869, após o Marquês de Caxias (futuro Duque) ter-se demitido da função. O Conde não possuía mais vontade alguma de partir para o teatro de operações, não por covardia, mas por achar indigno e desnecessário continuar a guerra somente para caçar Francisco Solano López, o ditador paraguaio, opinião essa compartilhada por boa parte dos brasileiros. Mesmo assim, a nomeação do conde, à altura com apenas 27 anos de idade, em 22 de março de 1869 como novo comandante-em-chefe reanimou a opinião pública brasileira.Quando chegou ao Paraguai, reorganizou o exército brasileiro e demitiu oficiais acusados de saques no território inimigo.

O Conde d’Eu decidiu utilizar táticas diversificadas para ludibriar o exército paraguaio quanto a como e por onde o exército aliado realizaria seus ataques. Na opinião do visconde de Taunay, o conde revelou “grande habilidade estratégica, paciência de experimentado capitão, indiscutível coragem e sangue-frio”. Também participou ativamente das batalhas que ocorreram, como em Acosta-Ñu, onde correu grande risco. Foi ideia do Príncipe-Consorte a de extinguir definitivamente a escravidão no Paraguai. Em setembro, desanimado com a falta de condições materiais do Exército Brasileiro para prosseguir na perseguição a Solano López, e vendo negado pelo Imperador seu pedido de por término à guerra, o Conde d’Eu entrou em depressão e praticamente se retirou da condução de exército aliado na guerra, que viria somente a terminar em 1 de março de 1870, com a morte do ditador paraguaio. Ao retornar ao Brasil, em 29 de abril de 1870, Gastão foi recebido como herói e com grande manifestação popular, além de ter sido nomeado conselheiro de Estado em 6 de julho do mesmo ano.

Apesar de decepção inicial em relação à beleza da esposa, Gastão viria a se apaixonar e amá-la até os últimos dias de vida, sentimento este correspondido por D. Isabel. Não sendo à toa que o relacionamento de ambos era pautado numa cumplicidade ainda incomum a época. Seu primeiro filho, Príncipe Dom Pedro Gastão, nasceu em 1875, após 11 anos de casamento. Em 1878 nasceu Dom Luís e em 1881, seu último filho, Dom Antônio.

Ao casar-se com a princesa Isabel, Gastão buscou participar ativamente do governo brasileiro, realizando comentários e aconselhando quanto ao desenvolvimento do país. A realidade é que a ideia de servir como mera sombra da esposa o desagradava profundamente. No entanto, Dom Pedro II nunca permitiu nem ao conde nem a Dona Isabel que participassem das decisões do governo nem sequer discutia com o casal qualquer assunto relacionado ao Estado, exceto durante as 3 vezes em que Isabel assumiu a Regência do Império. Ao se ver excluído da máquina decisória e política do estado brasileiro, o Conde d’Eu se voltou a outras atividades junto a sua esposa, ao tornarem-se patronos constantes de óperas e de concertos, patrocinando-os com o intuito de arrecadar fundos para as instituições sociais e filantrópicas que apoiavam. Visitou boa parte do país, mais do que qualquer outro membro da família imperial, inclusive a região sul, assim como o nordeste, norte e inclusive o interior de Minas Gerais. No final do império, empreendeu uma grande viagem ao norte do Brasil, que foi um sucesso, demonstrando que a monarquia ainda contava com um grande apoio no país.

Após o fim da Guerra do Paraguai, surgiu o Clube Republicano em 1870. D. Pedro II ainda gozava de grande popularidade, concentrando-se em Gastão e em D. Isabel grande parte da antipatia nutrida pelos republicanos. O “casal era um bode expiatório perfeito, e o Partido Republicano e seus simpatizantes na imprensa não tardaram a culpá-los pelos problemas do Brasil”. No entanto, quem mais sofreu foi Gastão, que era repudiado por todos e “sempre foi profundamente impopular. A surdez, que piorou com a idade, tornava-o antipático aos olhos gerais e o sotaque lembrava claramente ao interlocutor que estava tratando com um estrangeiro”. A “mentalidade europeia de Gastão o estigmatizava como forasteiro incapaz de se adaptar a cultura da esposa. Os brasileiros o chamavam de ‘o francês’ e execravam sua participação na condução dos negócios públicos”.

Era constantemente atacado pela imprensa republicana, que chegava a ponto de criar calúnias absurdas. Não tardou para que as lideranças políticas também o evitassem e mesmo o destratassem publicamente, como ocorreu na solenidade de juramento de sua esposa como regente, onde foi proibido de caminhar ao lado de D. Isabel e preferiu simplesmente ficar em casa. Também passou a ser excluído de cerimônias e de algumas reuniões do próprio conselho de Estado. Temia-se a sua influência natural sobre D. Isabel, por sua condição de esposo, e todos acreditavam sinceramente que seria ele e não ela quem governaria o país após a morte de D. Pedro II.

Quando a República foi proclamada por um golpe de estado, em 1889, a Família Imperial Brasileira se retirou em exílio para Portugal e daí para a França. Gastão pediu permissão aos seus parentes Orléans para residir com sua esposa e filhos no Castelo d’Eu, na Normandia francesa.

Teve de encarar a tristeza de ver dois de seus filhos morrerem, Dom Antônio em 1918 após o término da Primeira Guerra Mundial, na qual lutou, e Dom Luís em 1920, que tambpém combateu na guerra, ambos pelas forças do Reino Unido.

Após a morte de Princesa Isabel, legitima e tratada pelos monarquistas como Imperatriz do Brasil, em 1921, o Conde retornou ao Brasil para repatriar os restos dos Imperadores e que atualmente se encontram no Mausoléu Imperial da Catedral de Petrópolis. O Conde d’Eu morreu em 28 de agosto de 1922, de causas naturais, a bordo do navio Massilia, que mais uma vez o trazia ao Brasil, para a celebração do primeiro centenário da independência do país.

Seu corpo se encontra ao lado de o de sua esposa no Mausoléu Imperial na Catedral de São Pedro de Alcântara em Petrópolis.

Imagem: O Conde d’Eu durante a Primeira Guerra Mundial, com seu neto, Príncipe Pedro de Alcântara (1913-2007).

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