Het Wilhelmus, o hino nacional mais antigo do mundo

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Hoje falaremos sobre mais um hino nacional e sua história – desta vez, tratando do hino neerlandês (dos Países Baixos ou, como é conhecido erroneamente, da Holanda), o “Het Wilhelmus”, ou “O Guilherme” em português (seria mais próximo do original se disséssemos “O Guilhermino”, mas “O Guilherme” é o correto), que é o hino nacional mais antigo do mundo. Então, com certeza, há muita história a ser contada.

O hino é muito longo, por isso não é cantado por completo nem mesmo em cerimônias oficiais – é comum que seja cantada apenas a primeira estrofe, às vezes acompanhada da sexta, que formam um “resumo” da canção (sim, isso acontece com boa parte dos hinos nacionais mundo afora). É um poema cujo Eu lírico é Guilherme, o Taciturno (alcunha de Guilherme I de Orange-Nassau). Isso seria equivalente, no Brasil, a termos um hino nacional na voz de Dom Pedro I. Já explico o porquê: o “Príncipe de Orange”, como é conhecido Guilherme, foi quem impulsionou a Guerra dos Oitenta Anos (que teve algumas tréguas, mas que durou OITENTA ANOS, então imagine como foi impactante para a memória desse povo) que leva à independência das Províncias Unidas dos Países Baixos, região antes dominada pela Coroa Espanhola.

->Pra acabar com a confusão, vamos explicar alguns termos usados aqui:

– Holanda: provavelmente derivado das palavras “Holt” (bosque) e “Land” (terra), “Holanda” (Terra dos Bosques?) é um topônimo largamente usado para designar os atuais Países Baixos, mas que designa oficialmente apenas as duas províncias centrais e mais importantes de tal país, a Holanda do Norte, onde fica Amsterdã, e a Holanda do Sul, onde ficam as cidades de Haia e Roterdã (na época eram uma só província).

– Neerlandês: gentílico oficial dos Países Baixos (não, não é holandês).

– Países Baixos: região de planícies ao norte da França e oeste da atual Alemanha, onde hoje se situam Bélgica (mais ao sul) e Países Baixos (ao norte).

– (República das Sete) Províncias Unidas (dos Países Baixos): parte da região, à época espanhola, que se revolta contra o domínio de Filipe II e reclama pela independência, mantendo a Guerra dos Oitenta Anos de pé.

Voltando aos fatos:

Por seu profundo teor patriótico, o poema, que alguns (como a própria Coroa Neerlandesa) afirmam ter sido escrito em 1574 por Philips van Marnix, um político e escritor neerlandês muito ligado a Guilherme I e à “Revolta Holandesa” (como ficou conhecida inicialmente a luta dos neerlandeses pela independência), tem sua autoria bastante contestada por alguns detalhes nos quais não pretendo entrar aqui. Mas fato é que foi usado popularmente como hino na própria guerra (em episódios como o cerco a Haarlem) e em diversos outros cerimoniais marcantes para a história do país. Sua melodia oficial foi feita por Walter Boer em 1932, o mesmo ano em que o hino é oficializado.

É contado popularmente que a Primeira Guerra Anglo-Holandesa começa quando, em desrespeito aos Atos de Navegação de Oliver Cromwell, que determinavam que todo navio estrangeiro navegando pelo Canal da Mancha ou pelo Mar do Norte deveria arriar sua bandeira para saudar navios ingleses (mostrando, assim, submissão à marinha inglesa), uma tripulação navegando sob a bandeira das Províncias Unidas começa a cantar Het Wilhelmus enquanto o capitão inglês Robert Blake dava tiros ritmados como aviso para que os holandeses baixassem sua bandeira. Com o fim da cantoria, que coincidiu com o terceiro disparo de alerta dos ingleses (assim reza a lenda) que fere alguns marinheiros, o almirante holandês Maarten Tromp lança a partir de sua capitânia uma salva de canhões contra a frota de 25 navios de Blake. Tromp com seus 40 navios perde a batalha, mas é lembrado até hoje por sua resistência – que leva duas potências navais à guerra e seu próprio país a perder muito mais que os ingleses, mas é heroísmo mesmo assim.

Uma curiosidade sobre o texto do hino é que se juntarmos a primeira letra de cada uma das quinze estrofes, encontramos “WILLEM VAN NASSOV”, Guilherme de Nassau no neerlandês da época. O hino canta os motivos de Guilherme para se rebelar contra a tirania de Filipe II, que cobrava impostos abusivos da região, que já sofria com o desemprego e com o medo de que também fosse estendida até lá a Inquisição Espanhola. Imagine-se sendo um burguês calvinista sob o domínio de um rei católico estrangeiro que cobra muitos impostos sobre seus negócios e ainda ameaça uma perseguição religiosa. É, pensando assim, é bem compreensível a causa do Príncipe de Orange.

IMAGEM= “Philips van Marnix dá o Wilhelmus de presente a Guilherme, o Taciturno”, pintura por Jacob Spoel, artista neerlandês.

Para ouvir enquanto lê:

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