A solução para a História

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Eu e um administrador da página Compostura Transparente, Bill Kurten que está no curso de Filosofia, estabelecemos um diálogo a respeito de História e Filosofia e em seguida acabamos por chegar a algumas conclusões.

Diálogo

– Lucas Emmanuel: Eu tratei do método “aristotélico” de comparar e criar uma dialética a partir de resenhas temporais das filosofias. Quando surge o século 17/18, tem o mesmo plano só que agora através das lições da História da Filosofia de Hegel que entendia que o conteúdo da filosofia era a própria história da filosofia. Ainda no século 18, surge o Positivismo e Historicismo, e que através dele surge outra “história da filosofia” como obra, só que dessa vez apenas narrando às filosofias. E por fim, no século XX surge a Escola dos Annales que, não resolveu o problema já imposto por estas diferenças e seus problemas internos, mas abriu o diálogo com outras ciências sociais: Antropologia, Psicologia, etc. A pergunta que não quer sair da minha cabeça é: Se conseguirmos estabelecer o diálogo com a Filosofia através de todos estes métodos poderiam realizar menos tensões? (Eu sei que as tensões ainda permaneceriam, tanto que o Positivismo é uma tensão em sua essência, praticamente. Mas, tentar pelo menos reduzir). Eu havia explicado melhor as tensões, talvez fique até mais fácil de compreender aonde eu quero chegar se eu explicá-las novamente.

– Bill Kurten: O Positivismo é epistemologicamente inválido. Ele não sustenta nem seus próprios critérios, quem dirá uma historiografia. De todo jeito você teria de romper com ele. Historicamente, depois do positivismo nós tivemos na Filosofia a desconstrução. A dificuldade em se fazer uma historiografia atualmente se dá pelo fato de que a razão tomou o caminho do positivismo e este, além de falho, resultou em problemas históricos. Com isso, a decepção com o positivismo e com a razão gerou o paradigma de desconstrução que é presente desde Wittgenstein até o fim dos anos 90. Ainda estamos formulando a recuperação da Filosofia e da razão com paradigmas pós-desconstrução. O modo mais adequado (a meu ver) de se formular uma historiografia válida e que minimize os conflitos é recuperando uma noção de temporalidade. Buscar na recuperação da razão um entendimento claro da temporalidade.

– Lucas Emmanuel: Eis a tensão: O positivismo histórico é pura temporalidade cronológica. Annales é dialética pura. História em migalhas. Não a pegam como os Positivistas que a colocam como um todo até o momento atual. Tanto que os Annalistas adoram pegar uma coisa que aconteceu no século 12 e ligá-la ao que acontece hoje.

– Bill Kurten: Eis um problema… Com pura temporalidade cronológica você só reconhece eventos fragmentados em sequência. A função da História é compreender o conjunto de determinações e todo o contexto presente nos recortes da linha temporal.

– Lucas Emmanuel: Os Annalistas se contrapõem tanto a isto que retiraram o aspecto de História propriamente dito. Foi o que eu disse na nossa primeira aula de História no C.T: História é Sucessão Temporal dos acontecimentos (materiais), Ciência que estuda essa sucessão, Dimensão temporal da vida humana, Narrativa dos fatos. Só nessas características já temos uma tensão. E foi o exato exemplo que eu dei no vídeo. ‘Sucessão temporal dos acontecimentos: Sócrates era Sócrates antes de nascer, depois que nasceu e depois que morreu. Já a ciência que estuda essa sucessão não aceita a essência de Sócrates, mas apenas a temporalidade fechada em que ele viveu. ’

– Bill Kurten: Falta a formulação de uma historiografia mesmo… O rompimento com o positivismo é necessário já que até em modos hegelianos — na filosofia — a historiografia é mais efetiva. O ponto de partida é uma definição filosófica do Tempo.

Solução para o problema temporal

Nós seres humanos, conseguimos estabelecer uma compreensão do tempo como a Estrutura da Possibilidade Universal: Sucessão de possibilidades que ocorreram até o momento, e o encaixe delas nas possibilidades subsequentes — que já se inclui por fenômenos até mesmo supratemporais. (Exemplo disso: Como dizia Boethius “A eternidade é a perfeita possessão simultânea de todos os momentos”, isso quer dizer que já está implícito a necessidade desta percepção temporal como uma Ordem que se apresenta para a História subsequente).

Entendendo isso, podemos catalogar os problemas temporais que estão presentes:

(1)- Método Aristotélico: Incapacidade de definição temporal-cronológica.

(2)- Método Hegeliano: Aproveitando a exposição aristotélica, cria a dialética interna que se revela no tempo. Porém, produtos externos, ou seja, a idéia de um desenvolvimento temporal unitário só aplicável em existências contínuas, só é possível captar esta concepção de unidade, porque a existência da “não uniformidade” também é possível. Isso só pode ser concebido dentro da Filosofia.

(3)- Método Positivista: A idéia de que a interpretação de conjunto não seja válida, é inválida, pois um método cientificista, já separado de sua estrutura filosófica, só tende a reter problemas.

(4)- Método Annalista: A expansão do marxismo dentro da École, que contém ainda mais problemas, nos mostra que a História saiu de um campo filosófico que já era problemático, para um campo científico que não retém, senão, suas próprias invalidações dialéticas.

Todas elas têm tensões. Mas observemos que, em seus contextos próprios, apresentam características fundamentais para que a História seja Objetiva e todas elas se assemelham:

(1) Objetividade em criar a dialética através da interpretação de conjunto.

(2) Objetividade do movimento da Filosofia como história.

(3) Objetividade temporal cronológica.

(4) Objetividade para as novas ciências sociais.

Se optarmos por agrupar suas qualidades citadas acima, é evidente que iria criar tensões como: Dialética temporal concentrada nos fatos já registrados historicamente. O que por si só, já nos remete a um grande problema. Mas há como se desviar dele:

A prática documental é inteiramente metodológica científica (Positivismo). Ela já incide na sua linha temporal, mesmo estando perdida (Aristotélico). A necessidade de colocá-la no tempo como fragmento utilizável, se torna válida (Annales). A interpretação nos incide o conjunto unitário que tal documento nos apresenta como dado e como teoria (Hegel).

A solução para a temporalidade é transitar perante os métodos que residem os mínimos problemas, encarando a Filosofia como base pela razão em função da História. Alguns métodos se baseiam em tensões e sobrevive por um tempo. O resgate destes refere-se em resgatar, juntamente, estas tensões. O agrupamento desses métodos citados acima nos ajudará a resolver a maior tensão que os Historiadores e as Histórias enfrentam: Relatividade.

Solução para a Relatividade

Acima caracterizamos o tempo, não de uma forma completamente histórica em seu sentido mais plano, mas, filosófica. Isso se deve ao fato de que toda a percepção humana do tempo, se dá pelo passado irrevogável e irreversível, e que não pode ser percebido por um desígnio empírico, mas através da razão e das fontes.

Mas, isso nos incide em um problema da própria metodologia:

1- Se a razão se torna base e não uma consequência da história, isso quer dizer que é a metodologia que definirá o objeto histórico, visto que ela aumenta a capacidade, não do objeto, mas da própria metodologia propriamente dita.

Nesse sentido, é evidente de que a História seria relativa nos termos contemporâneos de análise. E, a princípio, este raciocínio faz sentido por conta da definição temporal filosófica que logo se relaciona com a metodologia. Mas não é bem assim.

Catalogamos que a junção das metodologias Aristotélica, Positivismo, Hegeliana e Annalítica, poderia nos conferir um objeto muito bem descrito que possa ser analisado em sua própria fonte material, reproduzido em sua cronologia temporal já irrevogável e irreversível, que logo após poderia ser colocada em um objeto unitário, e por fim poderia criar um destaque numa análise filosófica. E, toda esta junção, elimina a pouca margem de erro que o Historiador, encarregado destas novas funções, pode conceber o que tal objeto histórico lhe evidencia. Em outras palavras, não há apenas a margem filosófica de análise, existe, na verdade, uma junção de todos os estilos historiográficos que podem amenizar tais problemas.

A razão, portanto, não está presente em sua base, mas na sua verdadeira conclusão. Não há como pensarmos objetos históricos inexistentes. Só existe essa possibilidade quando sabemos da existência factual de tal documento que nos evidencia o que aconteceu, seja ele pouco ou muito relevante, e isso já se torna o contrário da relatividade. Afinal, o objeto histórico já é essencialmente uma história, que por sua vez reflete acontecimentos, modos, costumes e mentalidades que mesmo existindo alguma outra fonte que aponte o contrário, alguma coisa aconteceu com aquilo e é objetivamente irrevogável.

Isso quer dizer que a História só é relativa quando há uma inversão ou incapacidade tão grande de descrever o objeto, que a metodologia apela à sua suposta grandeza da razão que poderia conceder o objeto histórico, como um fato meramente concebido, fortalecendo a metodocracia e invalidando o que de fato ocorreu por existir uma fonte contrariante.

Ora, se existe uma fonte contrariante e que logo há uma prova de que alguma está completamente errada, isso quer dizer que para existir tais fontes necessita, objetivamente, de um fato irreversível que fundou alguma fonte realista que o descrevesse da melhor forma possível, e fundou também a contrária no programa de desmentir tal acontecimento.

E isso não se trata de relatividade, isso se trata de História.

A história sempre obteve este problema que não é completamente solucionável. Sempre haverá alguma fonte ou documento histórico que se contrapõem aos outros. E é por isso que existe a averiguação dos documentos, análise de estruturas sociais e lógicas, pesquisas antropológicas, etc. A história visa relatar não somente o que aconteceu de fato, mas também, o que diziam ter acontecido e que em alguns momentos da história, isso se tratava de deturpações. Se a história fosse realmente relativa, nem mesmo as deturpações ou invenções históricas seriam percebidas contemporaneamente.

Os historiadores, no intuito raso de produzirem histórias revolucionárias que não condizem com a realidade, ou simplesmente reproduzirem aquilo que já foi dito milênios atrás, deixaram de lado os problemas metodológicos, lógicos e até mesmo dialéticos que se amaram em utilizar. Dessa forma, é muito fácil conviver com os problemas e apontar a história como relativa, por preguiça, talvez, de resolver sua própria matéria que se deu ao longo dos séculos.

Solução para as Historiografias seguintes

Não cabe a mim, devido a minha incapacidade, criar um método historiográfico perfeito que possa transitar em todas as esferas sem nenhum problema. Acredito, ademais, que a historiografia é em essência problemática, e que seja impossível uma metodologia sutil. Não obstante, vejo que o ápice que podemos configurar sem problema algum, e que por consequência nos evidenciarão soluções subsequentes, se trata da ordem natural dos acontecimentos.

1- Irrevogabilidade é em si, objetiva, pois os efeitos sociais e econômicos, por exemplo, permanecem, e mesmo que haja alguma mudança gradativa, a essência da mudança já implica na situação que a precede. Isso, portanto, significa que os fatos são irreversíveis e que, somente ao longo do tempo podem transitar em mudanças. Elas não mudam a situação anterior, mudam a situação atual que reflete nas situações predecessoras.

2- Irreversibilidade alude à situação efetiva de um passado, em que nenhum momento ou fração de segundo possa ser reversível perante alguma metodologia ou análise. Logo, a fonte histórica – ou documento histórico – nos evidencia uma visão de um objeto real. E, não cabe a nós, historiadores, utilizarmos a metodologia em favor dela mesma, mas em função da busca – quase interminável – do passado. Tratar de focar no objeto e não no método.

A História não é relativa e a inexistência de uma metodologia cuja autoridade possa flutuar acima do objeto histórico nos evidencia isso. A História é a análise e o destaque do passado que nenhum método usufrui de sua própria definição. A História é um problema. E, somente transitando os métodos citados mais acima, conseguimos evidenciar de que a História, na verdade, não é tão simples quanto muitos imaginam, e que os historiadores não se propuseram em resolver problemas, cuja existência ainda é predominante no fetichismo, em função de uma continuidade fechada que somente os métodos podem evidenciar um resultado aceitável. Acontece que se fosse dessa forma tão subjetiva, a história não seria necessária e nem teríamos deestudá-la.

Não há como pensarmos em uma solução para tudo, mas temos aqui, ao menos as principais tensões já resolvidas.

Por: Lucas Emmanuel Plaça

 

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