História da Literatura Brasileira (1900 – 1950)

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A Literatura no início da República; O Pré-Modernismo

Não é preciso expressar diversas vezes o quão instável o período Republicano foi, senão simplesmente pelo seu contexto quase interminável; ao atravessar praticamente um século de sua existência, resplandeceu um grande desfavor para com a literatura, sob os aspectos tão ou mais administrativos e políticos ao atingir a esfera do entusiasmo literário. Claro que as consequências não derivam única e exclusivamente do parâmetro político – assim como vimos em nossa compilação historiográfica nos artigos anteriores, dentro do alto realce inicial sobre a Colônia – entretanto, muitos dos conflitos sociais e econômicos, neste grande período de tempo, afloram-se através das diversas aspirações políticas.

Quem, em sua sã consciência, entenderá de que a Literatura não necessita de uma experiência interior e, como a tal, já inclusa numa esfera coletiva também? Nesse ponto, torna-se evidente de que as esferas externas, ou as categorias meramente coletivas, instigam o espírito dos escritores; sendo mais ou menos audaciosos por meio deste fator pouco nos importa no momento em questão. Basta, na verdade, saber que o contexto republicano influenciou em demasiado, não no sentido político – assim como demonstramos – mas circunstancialmente a literatura brasileira do século XX.

É por essas e outras razões que veremos embates fervorosos dentro da própria literatura. De início, temos basicamente dois grupos que podemos nomeá-los – sem nenhum receio aparente – em suas próprias esferas do desenvolvimento; 1- Conservadores 2- Renovadores; nada que, não obstante, possa nos prejudicar em matéria de documentação e na análise que procederemos.

De todo o modo, é preciso ressaltar que essas circunstâncias tal como resultariam posteriormente no Modernismo, ainda permaneciam parcialmente frustradas, pouco notórias e produtivas; em questão, tratamos do momento Pré-Moderno, cujas vertentes citadas acima não se regulam numa escola ou vertente literária restrita. Usualmente falando, das ambas as tendências, exclui-se de todas as formas a estética moderna propriamente dita que, por sua vez, só há indícios de sua realização décadas posteriores. O que permanece é a tradição parnasiana – em pequena parte romântica – e seus renovadores que almejavam uma espécie de harmonia com a herança interna ao mesmo tempo em que haveria de acrescentá-la algo a mais.

E como o terreno conjuntural derramava sobre a população uma instabilidade socioeconômica e política, nada mais a pensar a respeito da literatura senão sua própria exclamação em tais aspectos. As manifestações vanguardistas anteriores aos anos de 1920 não podem ser compreendidas na limitação da famosa “Semana de Arte Moderna”, de 1922. Foi um processo que, na verdade, alongou-se desde a queda do Império, em 1889, e fortalecido de maneira ininterrupta entre 1902 até 1922.

Cabe destacar aqui, no mínimo, três caraterísticas fundamentais desse processo. Ao longo dos anos, o prestígio já conquistado através do Parnasianismo (Realismo-Naturalismo), a sobrevivência do Simbolismo – agora resgatado por ambas vertentes já mencionadas – e no grande e meticuloso excesso das aspirações nacionalistas, concomitantemente com o pan-americanismo e o latino-americanismo; pode-se perceber um grande subterfúgio dessa última em alguns ideais da República Velha.

É claro que a abolição da escravatura, em tempos, fortaleceu profundamente a ala conservadora e renovadora, mas esta influência está atrelada, também, aos processos de imigração de São Paulo e Rio Grande do Sul que ao longo dos anos novas faces culturais vinham para ficar.

Aquele que merece um destaque especial é o famoso Augusto dos Anjos. Ele, no entanto, não pode ser encarado como parnasiano ou simbolista, pois, em sentido real, foi um herdeiro personalíssimo da poesia científico-filosófica. Sem a menor sombra de dúvida – e como suas mais lembradas obras – o “Eu” e “Monólogo de uma Sombra” são, in latu sensu, onde se pode facilmente encontrar a essência de seu pensamento; entende a condição humana em confronto com a natureza, onde existe a alegria possível – mas nem sempre à mercê do homem. É interessante como Augusto dos Anjos pode, ao mesmo tempo parecer um adepto do parnasianismo, como também parecer o maior oposto:

“[…] captada e expressa pelo homem através da arte, consiste essencialmente, na mais alta expressão da dor estética […]” (Augusto dos Anjos, Poesia e Prosa. São Paulo, Ática, 1977, pp. 57).

A citação acima é, de fato, o ponto de partida de um vocabulário lotado de cientificismo e filosofia, cujo seu pessimismo extremo aflora-se de todas as formas, realizando-o poeticamente.

Também – e como de costume desse estilo – o autor é fortemente inspirado pelas noções de Beaudelaire e Schopenhauer e que, no entanto, não o impediu de se libertar dessas cogitações, para revelar em seus escritos a grande e imensidão ternura, afeto e compaixão para com a fé na justiça e na proteção divina. O aspecto pessimista e corrosivo, somado a depressão às aspirações Modernas, pode ser percebido em um seguinte trecho de “Eu”, cuja representação “muito moderna” não cai bem para seus ombros:

“Aí vem sujo, a coçar chagas plebeias,

Trazendo no deserto das idéias

O desespero endêmico do inferno,

Com a carta hirta, tatuada de fuligens

Esse mineiro doido das origens,

Que se chama o Filósofo Moderno!”.

Essa obra em específico, foi sua única a respeito de poesia; e como pode se enxergar facilmente, a melancolia se entrelaça junto às palavras que, no fundo, não são lá bem poéticas – como vômito, verme e outras referências aos males e ruindades do mundo.

Do intuito intelectual nessa obra, Augusto dos Anjos parece deixar bem claro suas aspirações, seus sentimentos pessimistas ao mesmo nível de embate com os parnasianos tradicionais em que consegue elevar o chulo e o “podre” para as mais altas produções líricas que uma obra pode conter.

Ainda no mesmo âmbito, temos outro escritor, autônomo por assim dizer. Lembra-se de Machado de Assis, catalogado no século anterior? Ele, junto a outros escritores poéticos e da prosa, favoreceu parcialmente a presença do Modernismo. Sendo um escritor quase que ilimitado em suas opções e interesses de formas, ainda publicando aquelas obras importantes neste século como, por exemplo, “Poesias Completas” (1901), “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires” (1908), pode-se dizer, também, de que a sua trajetória literária sobreviveu e persistiu diante as insistências que viriam em seguida (por esta razão Machado de Assis foi mais aprofundado no artigo anterior), porém, é inegável que suas qualidades influenciaram, posteriormente, ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos Anjos e Graciliano Ramos.

Tivemos alguns escritores encaixados no pré-modernismo que não pretenderam praticar uma mudança drástica, assim como vimos. No entanto, aquele que mais preservou no sentido mais amplo possível, foi Xavier Marques. Diferentemente dos outros já citados, Xavier não conservou o intuito do parnasianismo. Muito mais além e profundamente o foi ao resgatar e dar continuidade ao Romantismo, o mesmo da década de 1830. Sua persistência notável pode ser encontrada em sua última obra, “As Voltas da Estrada”, publicada em 1930 – em pleno Modernismo.

A obra citada, em si, retrata os antecedentes imediatos da abolição da escravatura, seu contexto, e as consequências que esse ato revelou posteriormente a instauração da República. As situações ali escritas passam, temporalmente, da vida horrenda enquanto escravo, até o momento de obter a possibilidade de ascender-se socialmente. A narrativa dessa obra evoca um fim de século e o começo do seguinte sem ser propriamente um romance histórico.

Sua linguagem, meio que sobrevivente em tantas e diversificadas escolas e movimentos literários, permanecendo intrinsecamente romântica; A narrativa é alimentada pela intriga manifestada na idealização amorosa – quase que principalmente – e a tentativa de relacionar os indivíduos com o ambiente, equacionando os fatos e pessoas com o local.

Outra vertente muito presente nesse período do Pré-Modernismo – mas com narrativas profundamente ligadas ao Modernismo mais adiante – se trata do Simbolismo; dentre eles, o idealismo lírico de Graça Aranha. Ainda no Realismo, temos também numa parte mais crítica ninguém menos do que Monteiro Lobato.

De Graça Aranha, o romance “Canaã” publicada em 1902, e “A Viagem Maravilhosa”, publicado em 1929, destacam-se pelo seu idealismo, seu senso imaginativo perpétuo. Graça Aranha tem uma participação mais profunda e importante dentro desse e noutro período; pois, afinal, é um dos que estará presente nos acontecimentos de 1922, com a Semana da Arte Moderna.

Seu senso reformador foi tão enraizado que, tempos mais tarde, rompeu com a Academia Brasileira de Letras, acusando-a de reacionarismo; porém – e por uma circunstância desgraçada –na maioria de suas contribuições se basearam, justamente, nos pressupostos e estruturas literárias que se deu por divergente. Basta ver, por exemplo, que sua criação literária está intimamente voltada à temática nacionalista, guardando em seu particular desenvolvimento a própria Escola do Recife.

Monteiro Lobato, por outro lado e contendo motivos demasiadamente simples, não obteve nesse momento tanto prestígio e reconhecimento quanto o sr. Graça Aranha no início. Trata-se em sua obra chamada “Urupês” (1918) que seu marco inicial se encontrava. A obra reúne doze contos que se exclamam uma indiferença para com as atitudes governamentais a respeito do sistema agropecuário, concomitante com a destruição e queimadas, atrelado, também à criação de personagens que vivem neste meio como, por exemplo, “Jeca Tatu” como o cabloco – cujas particularidades giram em torno da preguiça e da fadiga.

Não era muito de se esperar que uma publicação desse estilo, ferindo a ideologia nacionalista, envolvida e enraizada com o bovarismo de origem romântica, culminaria sucesso em primeira vista igualmente a outras obras – os Sertões, por exemplo – que resplandeciam visões já ligadas ao modernismo; foi de certa forma, um dos primeiros momentos em que uma geração de escritores, eramengolidos, pouco a pouco, por um movimento literário-histórico.

Ainda no estilo no que tange o desânimo melancólico em ser Brasileiro – no sentido nacional – Lobato forçou, mais uma vez, uma obra chamada “Cidades Mortas”; eis um trecho dessa continuação:

“A quem em nossa terra percorre tais e tais zonas, vivas outrora, hoje mortas, ou em via disso, tolhidas de insanável caquexia, uma verdade que é um desconsolo ressurte do montão de ruínas: o progresso do Brasil é nômade, e sujeito a paralisias súbitas. Radica-se mal. Conjugado a um grupo de fatores, sempre os mesmos, reflui com eles de uma região para outra. Não emite peão. É um progresso de cigano – vive acampado. Emigra, deixando atrás de si um rastilho de taperas.” (Cidades Mortas, 3. Ed., São Paulo, Monteiro Lobato, 1921. P. 3).

O retrato do Brasil enunciado por Lobato nesse trecho reforça as prescrições realizadas por Machado de Assis quanto ao estado que o advento da República poderia ocasionar. Da diferença desta para a obra predecessora apenas circula na variação de cenário; antes a visão do campo e sua relação para com os indivíduos em sua essência, agora para o núcleo rural e urbano também.

De Monteiro Lobato, no entanto, não pode lembra-lo apenas em suas obras. Muitos de seus pensamentos, quase que indiferentes ao conhecimento de outros escritores, podem muito bem ser encontrados em suas ações, permitindo realizar uma relação de seus sentimentos com seus escritos. Já enquanto trabalhava na Revista do Brasil, fundando a Editora Monteiro Lobato (1920), pode-se dizer de que os veículos de informação e divulgação de idéias e críticas aproximaram-se de, praticamente, todas as tendências e inclinações da época; também sendo conhecido pelas célebres obras de literatura infantil e sem esquecer-se deste seu papel fundamental de sua vida, Lobato apoiou demasiadamente a implantação das Indústrias no Brasil: Fundou, em meados dos anos 30, a Companhia Petróleo do Brasil e liderou a Campanha do Ferro.

Já o célebre escritor de “Os Sertões”, ninguém menos do que Euclides da Cunha, atingiu sua fama por trazer ao espírito moderno a compatibilidade sincrônica de regionalismo na Literatura. Nas próprias palavras de Gilberto Freyre, o critério quase que genial utilizado por Euclides se trata, em sua excepcionalidade, a própria conciliação entre uma espécie de sociologia e geografia; mesmo contendo uma divergência para com bases culturais, a visão literária de Euclides pode ser resumida, sem nenhuma sombra de dúvida, de “imperativa”.

Por essas e outras razões a obra “Os Sertões” procurou adentrar literariamente no espírito brasileiro. Alguns autores e estudiosos brasileiros procuram uma relação dela entre o romance Canaã de Graça Aranha; sobre este fator, este que vos escreve não consegue enxergar nenhuma linha de compará-los, sem cair na usurpação de seus sentidos mais restritos, senão na própria vertente pré-moderna e moderna.

O Modernismo e a Semana de Arte Moderna

Os olhares a respeito do marco inicial do Modernismo normalmente estão direcionados para a Semana de Arte Moderna, enquanto pulam toda uma complexidade de vertentes que podem – e foram – nomeadas desde dentro ao movimento, quanto também em seus dissidentes. Nesse cenário em específico, as repercussões de adeptos e contrapostos sempre surgiam exorbitantemente. Concomitante a essa fisionomia um tanto instável nas passagens das décadas, apresenta-se um novo condicionamento muito mais elevado em critérios de dessemelhança que já não são bem os mesmos que o procederam no período Pré-Moderno.

São em referências de Tristão de Ataíde que evidenciamos uma ampla pluralidade. O mesmo repassou três classes de escritores que resumem, no sentido mais restrito possível, a obscuridade desde o início dos “tempos modernos”; entre eles estão os Passadistas (os que mantinham o espírito do século XIX), Modernos e Independentes (os que mantinham uma posição um tanto aversiva quanto ao Modernismo, Monteiro Lobato, por exemplo); e os Moços (os próprios Modernos) que o autor divide-os em mais quatro classes diferentes: Dinamistas, Primitivista, Nacionalista e Espiritualista. No entanto, o período que se abarca como Modernismo se estende desde 1920 até 1960. Não necessariamente por esse motivo cronológico, mas em todas as décadas nesse espaço de tempo, houve tantas renovações e mudanças, que resumir os Modernos a uma escola e/ou vertente específica é danar toda a produção literária e pensamentos realizados de um aspecto tão complexo.

Sabemos, no entanto, de que o espírito Moderno, através da Semana De Arte Moderna proclamada em 1922, cujo interesse e atenção principal regida pelos mesmos foram meramente a “revisão Crítica de toda uma experiência anterior, em termos brasileiros, voltada para a tendência que nos tem dominado, a saber, a do mimetismo com relação aos valores europeus”. Por mais que enunciem que o intuito do Modernismo da primeira geração foi “descobrir novas formas” – o que não é verdade – os fatos evidenciam que muito pouco fez em acrescentar; na verdade, uma espécie de “redescobrimento”, tanto histórico quanto do próprio estilo brasileiro propriamente dito. Como podemos ver, há uma forte relação para com o espírito “renovador” republicano; dar uma nova identidade ao Brasil tem certa semelhança com redescobrir e renovar estilos.

Os primeiros focos e proclamações modernistas já haviam começado em 1921, pelas colunas do Jornal do Comércio e do Correio Paulistano. Seu resultado: Semana de 22. A criação de “novas revistas mais adaptas aos preceitos modernistas”, como a Klaxon, Terra de Sol (Revista de Arte e Pensamento), etc. surge como ápice de um acontecimento que marcou a arte e a literatura. Entre os dias 11 e 18 de Fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com a companhia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Di Cavalcanti e muitos outros, instaurou-se, por fim, aquilo que se compreende como Modernismo. No momento das aberturas e exposições, muitas pessoas ficaram chocadas e não apreciaram em demasiado os “novos critérios”.

A renovação da linguagem e da quase extirpação de valores do século XIX por dentro da Literatura ocasionaram reações mais conservadoras em boa parte da população e mídia (por essa razão surgiram revistas citadas anteriormente, no objetivo de realizar uma balança de idéias) e alguns escritores.

Monteiro Lobato já havia, novamente, denotado agora em uma obra publicada no dia 20 de Dezembro de 1917, chamada “Paranoia ou Mistificação” que inclui críticas fortíssimas sob a exposição de pintura de Anita Malfatti – exposição esta que também estava inclusa na Semana de 22.

Destarte, a conturbação não cessou vaga e facilmente. Em vários escritos, há respostas e justificações a perspectiva moderna que, por uma compreensão muito simples, não foi tão significativa de início. Temos aqui um trecho de uma das cartas que Mário de Andrade enviou para seu grande amigo Manuel Bandeira. Mário deixa por ora muito evidente as suas convicções através de um importante depoimento sobre seus procedimentos e intenções que vinha assumindo:

[…] “Forcei a nota prá chamar a atenção sobre o problema, sempre com a intenção de no futuro, quando o problema estivesse bem em marcha, voltar a uma menos ofensiva verdade, e a uma lógica liberdade de mim. Nem meu trabalho resultou dessocializante, nem voltei prá trás. Pus um problema em evidência tão ferinte que toda a gente o encarou, dei uma liberdade nova (ajudei a dar, e com incontestável maior generosidade), de que toda a gente que importava se aproveitou” […].

O leitor deve perceber o estilo moderno na própria carta; expressões como “prá”, “dessocializante”, eram motivos mais do que suficientes para uma crítica midiática, de outros escritores ainda ligados aos aspectos românticos ou parnasianos, e até mesmo da população em geral. No entanto, a respeito disso, Mário também se defende:

[…] “Eu não tenho a mais mínima pretensão de criar uma língua. Creio até que das minhas maluquices nenhuma não se estriba sobre o fato não escrito antes. Às vezes mesmo me assombro como tudo já foi dito. Eu me fiz instrumento duma coisa natural, e só. […] Não sei qual será num século ou 50 a língua brasileira. Sou um fenômeno individual, e sempre falei, você sabe, que trazia a minha contribuição pessoal para um fenômeno que só pode ser coletivíssimo. A principal função minha não está nas minhas ‘invenções’ pois que sei lealmente quanto elas não são minhas, mas no trazer o problema, pros que me lêem, como uma realidade permanente”.

Na Poesia, Mário de Andrade, no entanto, foi dos modernos quem mais se preocupou com formulações teóricas. O “prefácio interessantíssimo” é o prefácio de si ao seu próprio livro “Pauliceia Desvairada”. Ali, Mário reflete-se em um ponto interessante, dizendo que o “passado é lição para meditar, não para reproduzir”, dando a fundamentação básica para o Modernismo que, portanto, era a renovação que reconhecia única e exclusivamente a continuidade, admitindo que “todos os assuntos são vitais”.

São com essas fundamentações que se criaram leis proclamadas pela estética da nova poesia. As mais conhecidas são:

1. Verso Livre: Fundamentação do Ritmo, sem possuir Métrica.

2. Rima Livre: Rima completamente variada, fora de lugar, imprevista e muitas vezes ocorrendo no interior do verso.

3. Vitória do Dicionário: Surge a defesa infame da Gramática como suficientemente prática para “o bom lirismo”, ao mesmo tempo em que se contesta a “construção fraseológica”, com preferência por outra “muito mais larga, muito mais energética, sugestiva, rápida e simples”.

4. Substituição da Ordem Intelectual pela Ordem Subconsciente: Associação de imagens para com a poesia.

Essas regras instituídas neste período alavancam uma personalidade temporal muito recorrente para com as atualidades literárias. (Convidarei o leitor, no próximo artigo, a realizar uma breve reflexão a respeito das “novas leis” esteticamente aceitáveis dentro da literatura).

De todas as obras de Mário de Andrade se destacam algumas características muito notáveis; por exemplo, as propostas poéticas do momento de debate e renovação, a criação em compromisso para com a brasilidade e com seu destino pessoal. A obra “A Escrava que Não É Isaura” projetou-se, por exemplo, estritamente dessa forma.

Outro escritor muito forte dessa época – e que muitas influências ainda permanecem – foi ninguém menos do que Manuel Bandeira. Nascido 19 de Abril de 1886, em Recife, Pernambuco, foi Poeta, crítico da arte e da literatura, professor, tradutor e ainda realizou uma obra monumental “Noções de História da Literatura” (inclusive muito utilizada para a realização destes artigos).

Seus primeiros livros, “A Cinza das Horas”, publicado em 1917, “Carnaval” em 1919 (representando um de seus mais célebres livros), caracterizam a preparação vinda de concentrações e pressupostos parnasianos e simbolistas, posteriormente associado ao seu processo de modernização. A obra “Libertinagem”, publicada em 1930, por exemplo, descreve-se no momento exato de sua atuação fundamental no modernismo. É nessa obra que um cultivo poético irônico procura predominar-se sob os antagonistas dos reformadores; a “liberdade de escrita”, proclamada precedentemente na Semana de 22 e reforçada pelos preceitos e o novo formalismo de Mário de Andrade, reflete como inspiração para o nome da obra. Daí, “Libertinagem”.

Na construção poética, seu lirismo, por assim dizer, percebe-se uma evolução meramente gramatical, e um aprofundamento ao sensualismo e o erótico, proporcionando o ar libertino propriamente dito. Com relação às tradições literárias, o poeta desempenha demasiadas críticas. Não é preciso repetir que a quantidade de criticismo literário nesse período foi exorbitante. Todos atacando todos, sem precedentes. Mas, com Manuel Bandeira é preciso ressaltar uma fisionomia, cuja conquista naquele tempo quase se perdia (exceto com alguns notáveis críticos, como, por exemplo, Monteiro Lobato do qual falamos tanto). Trata-se da honestidade; apesar de deixar-se levar pelas influências do momento, tão cativantes aos olhos contemporâneos da época, procedeu com muita clarividência para consigo mesmo em virtude de analisar obras e vertentes dissidentes.

Algo deste cenário criticista do autor Manuel Bandeira está intimamente relacionado com as publicações dos livros subsequentes; um deles, publicado em 1936, chamado “Estrela da Manhã”, “Lira dos Cinquent’anos” em 1944, “Belo Belo” em 1948 e “Opus 10” publicado já em meados da década de 50. Mas, não haverá somente critérios modernistas em seus escritos finais. De alguma forma, a temática do “fundamento pessoal”, inerente à necessidade lírica, permaneceu e floresceu nestas últimas obras. Em “O último Poema”, podemos perceber uma relação que o próprio tinha da poesia para com o seu íntimo:

“Assim eu queria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. (Poesias, Manuel Bandeira, ed. Cit., p 222).

A melancolia age proporcionalmente para com o Modernismo ao mesmo tempo em que se relaciona com a significação conjuntural que o aborda; com este trecho pode-se perceber que existe nesse, grandes diferenças, comparando-o com poesias dos séculos anteriores. Agora o Verso Livre e dentre as outras novas “leis da literatura moderna” entravam em vigor.

Oswald de Andrade foi um dos que exemplificaram a experiência poética, plenamente vanguardista, baseado nesses novos critérios. Em “Pau-Brasil”, uma de suas principais obras, percebe-se “a busca nas origens, através de fontes escritas” formulando, liricamente, e através de um senso de humor implícito nos cronistas predecessores, o traço interno e externo do perfil Brasileiro. Na obra, Oswald mostra-se demasiadamente contra os preceitos europeus, ainda agindo ironicamente para com os bovaristas do século XIX que também se voltavam para os aspectos “primitivistas” e colonialistas, que o próprio adapta a visão de brasilidade.

A respeito da obra, em uma entrevista datada no dia 26/06/1949, confrontaria o primitivismo pau-brasil com o primitivismo europeu da época. Para que fique mais claro, reservei um trecho importante de sua fala:

“BlaiseCendrars teve influência no surgimento do Pau-Brasil. Em 1925 eu trouxe impresso de Paris, com prefácio de Paulo Prado e ilustrações de Tarsila, o livro Pau-Brasil, de que decorreu um movimento dentro do nosso Modernismo (primitivismo/ grifo do autor). O primitivismo que na França aparecia como exotismo era para nós, no Brasil, primitivismo mesmo. Pensei, então, em fazer uma poesia de exportação e de importação, baseada em nossa ambiência geografia, histórica e social. Como o pau-brasil foi a primeira riqueza brasileira exportada, denominei o movimento Pau-Brasil. Sua feição estética coincide com o exotismo e o modernismo. 100% de Cendrars, que, de resto, também escreveu coincidentemente poesia Pau-Brasil.”

É com este “cenário Moderno”, com tantas particularidades, diversificações desde dentro do movimento modernista, que deu-se por iniciado um novo critério literário; este que estende-se até os dias atuais concomitante a algumas reformas e novas fisionomias. Houve muitos escritores desse tempo que mereciam seu tempo e lugar, dentro da plenitude do momento, como Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, José Vieira e Rubem Braga. No entanto, atento-me aos escritores modernos citados mais acima, de uma forma mais particular e compacta, pois, é em meados do século XX, mais especificadamente entre 1950 e 1960 que teremos de retomá-los como fonte inicial e outros autores modernos; por formas de contraste e comparações não levianas, mas intrinsecamente necessárias para podermos rastrear e pontuar claramente os processos literários do século XXI.

Por – Lucas Emmanuel Plaça.

Bibliografia:

História do Modernismo Brasileiro – Antecedentes da Semana de Arte Moderna, São Paulo, Saraiva, 1958. Mário da Silva Brito/ Capítulo VII – “Ruptura e Auto-conhecimento”/

V. Augusto dos Anjos, Poesia e Prosa, 1977/ 

Fernão Góis, Panorama da Poesia Brasileira – Volume 4 – O simbolismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959/

João do Rio, O momento Literário, Ed/

Cidades Mortas (contos e impressões), 3. Ed., São Paulo, Monteiro Lobato, 1921/ 

José Aderaldo Castello, A Literatura Brasileira. Origens e Unidade, Vol. 1, 2/

Gilberto Freyre, Atualidade de Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, ed. Da Casa do Estudante do Brasil, 1941/

Mário de Andrade, Cartas a Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1979/

Cronologia Geral da Obra de Mário de Andrade, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros/ 

Mário de Andrade, A Escrava que Não É Isaura, Ed./ 

Augusto dos Anjos, Eu. Bertrand Brasil Ed 49/

Manuel Bandeira, Noções de História da Literatura, ed. 1949/

Silvio Romero, História da Literatura Brasileira, Vol. 1, 2 e 3/

 

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