A História e sua Gnosiologia

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O objetivo deste trabalho é desvendar a gnosiologia do histórico mediante sua reciprocidade interna aos fatos, seus sentidos reais e a visão de sentido que dão os historiadores enquanto destampamos a polarização estereotipada da conduta metodológica que regeu e rege a historiografia atual, em virtude da má distinção de conceitos que acabaram se tornando figuras de linguagem em falta da investigação da própria unidade do real sentido da história, que totaliza os problemas ignorados indubitavelmente.

Conceitos Ignorados

Quando se lê uma obra historiográfica, é natural depararmo-nos com uma tremenda confusão analítica. Os fatos podem estar bem organizados sistematicamente, seguido de cronologia e explicações de funções efetivas naquele contexto. Também, assim como na maioria dos livros de história, não necessitam de uma cronologia explícita, bastando à análise sociológica ou antropológica do contexto que se segue com definições usualmente dogmáticas. Em ambos os casos há tensões que, gostaria de acreditar que fosse desatenção, mas, creio que seja desonestidade mútua dos historiadores.

A primeira delas que sempre se torna clara é a falsa proclamação da “história-problema” que se dá início no movimento da École des Annales, com Lucien Febvre e March Bloch (atento-me em iniciar com “Annales”, mas mal poderemos compreender os reais desleixos se não começarmos por eles). Peter Burke, um dos relatores – e provavelmente adepto moral ao movimento – da Escola dos Annales, dizia: “Os historiadores tradicionais pensam na história como essencialmente uma narrativa dos acontecimentos, enquanto a nova história está mais preocupada com a análise das estruturas.” (BURKE, 1992, 12).

Mas, ora, e quem nos disse que para melhorarmos o aspecto historiográfico e suas funções, temos de sair de um extremo e criar outro? Para compreendermos melhor, convido o leitor a conceituarmos o significado de História e suas características internas, a fim de detalharmos a extremidade.

Coisas distintas são “Fato Histórico (na perspectiva do Cosmos como o ‘todo acontecer’) enquanto Fato Histórico”, e “Fato Histórico (no sentido de que dão os historiadores)”. Ora, algum acontecimento que têm influência, condicionamento e/ou significação para um determinado grupo específico, quer dizer que ele ultrapassa o nível primordial do indivíduo, adentrando a direção do destino que lhe aguarda. Tal pode nomeá-lo de “Histórico” e, a partir do Histórico, temos o “Historial” em seus conjuntos de fatos obtidos no tempo que tiveram sua influência, condicionamento e/ou significação sobre uma coletividade humana. Mário Ferreira dos Santos nos ajuda a compreender esta questão, através da “Morfologia da História”.

A partir disso, temos um coadjuvante essencial. O “tempo” (Fato Histórico) tem seu campo que influi naturalmente sobre outros fatos históricos (a sucessão temporal dos acontecimentos como: um dia sobrepondo-se ao outro, ou uma morte sobrepondo-se à vida, ou um condicionamento individual sobrepondo-se ao grupal). E, com isso, temos a visão histórica do mundo que se repete – por condições que possam a gerar, como a morte de indivíduos que sempre desencadeiam o mesmo efeito – e a irreversibilidade – como, por exemplo, não pode haver um segundo Sócrates, mas pode haver circunstâncias que geram um Sócrates.

Temos, agora, parte da essência da História (Sucessão, Substituição e Irreversibilidade). Podemos, com isso, distinguir Sociologia de História, a partir da inteligência humana como função de escolha, da seleção de aspectos, da recordação e produto histórico. Assim como Mário Ferreira dos Santos pontua: “A Sociologia atualiza notas que se repetem dos fatos, enquanto a História apenas atualiza as irreversíveis. O fato em unicidade não volta.” E, mesmo se dissermos que “A história se repete”, é mais sociológica do que a própria história.

Sem nenhuma complexidade, vemos que o intuito da Escola dos Annales para reter uma junção das ciências sociais já começa falido. Sem desfrutar de uma ontologia explícita que possa ser descritiva, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia e a Geografia por dentro da História só irão adquirir uma forma extrema de “Extensidade” (Objetivação do Produto Histórico). Ora, quem enxerga a história apenas extensivamente, tende a ver mecanicamente os fatos históricos, a atualizar uma causalidade rígida e sistematizar o acontecido. E isso cai por terra toda à crítica que a Escola dos Annales faz à História Tradicional. Pois, em uma análise dialética, vemos que todas as historiografias partilham de um mesmo pressuposto, o famoso: “Vamos pensar a História”.

É para isso que devemos considerar a Morfologia da História como um precedente de princípio, uma forma conceitual. Se juntarmos a forma extensiva (contendo uma mecânica, causalidade e evidência sistemática da experiência de vida) com a forma intensiva (contendo o orgânico, temporalização e fisionomia da experiência de vida) é termos uma visão viva e orgânica da alma da sociedade em sua total complexidade, junto aos mecanismos e sistema de “causa e efeito” que implicam em seus nexos. Não obstante, é claro que a Historiografia não está apta a fazer esta junção, pois estes problemas que foram evidenciados agora são efeitos de mil outros anteriormente a eles.

E, por último, quando tentamos abrir um diálogo com outras ciências sociais – que também tem problemas – como que se pretende reduzir suas tensões e permanecer intactas? Isto é, para analisarmos um efeito “social histórico”, não podemos jamais confundir o Fato Histórico com um Fato Generalizado Social. Um absurdo monstruoso e que, não obstante, ocorre quase que inevitavelmente. Ora, as massas e a sociedade como um todo não retém poder algum. Isso é levar a história para o mesmo extremo de mecânica causal. O único poder existente está no indivíduo concreto que, mesmo que alce algum poder superior ao seu mérito, a visão de seu horizonte de ação é muito maior do que um grupo maior. Exemplo disto: “A sociedade, por acaso, descobriu/inventou a teoria da relatividade e foi contar para Albert Einstein?” não! Foi Einstein que criou a teoria, pois seu horizonte prático e teórico expandia-se infinitamente de outros indivíduos, mediante a diferenciação da esfera da razão que cada indivíduo retém em si mesmo.

É por isso que está completamente errada a proposição – às vezes até dialética – de analisar as massas, pois “elas foram os agentes da história”. Jamais. A história é um emaranhado de complexidade e apenas as grandes ações políticas, econômicas, científicas, filosóficas e até mesmo historiográficas que nos servem de espelho para compreendermos a unidade do real. Normalmente, depois desta enunciação deste que vos escreve, surge a indagação quase que inacreditável: “Então não devemos estudar sociologia ou a sociedade em um contexto histórico?”. É claro que devemos. Mas não podemos cometer o erro de optar extremos em uma historiografia, e concluir a partir de figuras de linguagem o “todo histórico”.

Por essa razão, a única busca de compreensão histórica válida de um grupo não se dá pelo seu aspecto extremo de dois polos, afinal eles sempre caem em um estereótipo político-ideológico assim como vimos com o Materialismo Histórico Dialético (Marxismo). O melhor esclarecimento análogo que podemos obter se trata da própria expressão e do movimento dos indivíduos que, por muitas vezes é mutável em tempo lento e gradativo. Por exemplo, quando Eric Voegelin realizou a “História das Idéias Políticas”, a primeira dificuldade dele foi tentar encontrar um nexo temporal entre a idéia concebida e, quando o indivíduo que a concebeu, realizou-a. Trata-se, portanto, de utilizar a Morfologia da História novamente. A extensidade e a intensidade para, primeiro, entrarmos na alma do indivíduo e só assim compreender razões, nexos e efeitos que geraram suas produções.

É por isso que não podemos procurar, na história, alguma forma de captá-la por uma posição intermédia – tanto que até dentro da filosofia isso é inválido – mas, tentemos, a partir de agora, uma constatação das diferenças para uma concepção superior.

Para podermos catalogar uma Classificação da História, primordialmente temos que relembrar que a Intensidade e Extensividade se complementam e, a partir delas, quando podemos enxergar esta Morfologia da História, percebemos também sua essência irreversível que pressupõe o estudo e diferenciação da sociologia e, somente a partir de todas essas características podemos adentrar a história como tal. Para isso, mostremos a seguir que, podemos ver o mundo como um “produto” (vir-a-ser, tornar-se) e “produzir-se”.

Tudo aquilo que já aconteceu, ou seja, o que restou da História no espaço – seja geográfico, efeito nos indivíduos, monumentos, documentos, etc. – pode-se chamar de produto. Já a História, por questões contemporâneas, é o “produzir-se”, pois, é dinâmica no tempo. Então, nós, indivíduos, somos históricos, porque vemos o mundo como um produzir-se, ao contrário do homem greco-romano perante a nossa visão. Então, tudo aquilo que aconteceu, sendo produto (ou, por exemplo, os gregos), e tudo aquilo que está acontecendo e que, no entanto, produz uma história (como nós, por exemplo), é a base para classificarmos a história.

Há, no mínimo, duas classificações possíveis:

  1. O mundo da Natureza.
  2. O mundo da Cultura.

Dentro do mundo natural, pode ser fornecida a nós a ciência genérica, ou uma consideração pelo lado orgânico e inorgânico. Se o consideramos historicamente, temos a Bio-historiologia (que será a ciência que tem como objeto o “produto histórico-biológico”), e sua diferenciação da Fisio-historiologia (como objeto de estudo o “produto histórico-físico”). Nesta relação, vemos uma semelhança muito grande com a Antropologia que liga o ser humano com natureza e a cultura.

O mundo cultural, diferentemente, expressa a História Humana propriamente dita, como se fosse à Antropo-historiologia, a qual estudaria a vida humana apenas como história em seu desenvolvimento. Dentro dela, podemos catalogar o que foi dito mais acima, o que “há coisas que se repetem e outras completamente irreversíveis”. No entanto, temos ainda mais classificações a se fazer, pois, dentro dessas duas, há uma multidão de histórias e diferenças de classificações:

(1) Cultura – História Interpretativa, Analógica, Metafísica, Sistemática, Descritiva como a classe “Irrepetível”. Teríamos, na classe que se repete a Ecologia, Etnologia, Economia Ética e Sociologia.

(2) Natural – Sociologia Real, Ciências, Fisio-historiologia, Biologia, Zoologia, etc.

O leitor tem a oportunidade de estar se perguntando agora: “O que fazem os historiadores, perante toda esta complexidade sendo que, como visto mais acima, nem mesmo o conceito mais fundamental da História – como irreversibilidade – é utilizado?”. A resposta é dificílima visto que há fragmentações em diversas metodologias da história. Apesar disso, eu arriscaria o seguinte: “Os historiadores, a maioria deles, estão despreocupados com a complexidade do histórico e historial, pois, acreditam que uma metodologia é capaz de sintetizar os produtos e todas as classificações possíveis. E, aqueles que não acreditam nisso, sabendo que a história é complexa e que, no entanto, não há o mínimo esforço de reduzir estas tensões, são desonestos”.

Intuição Historial

O raciocínio lógico tem a sua validade, mas nunca a sua veracidade. A lógica é um conjunto de regras que permite verificar a validade de um discurso, se ele é coerente ou não. O que temos, então, é a sua validade ou invalidade. A pergunta que nos ajudará a compreender o fenômeno a seguir é: Há conhecimento intuitivo? Intuição significa a percepção imediata de uma presença e que, no entanto, não necessita ter uma presença física ou moldável no mundo exterior. Visto isso, o fundamento do conhecimento racional é uma percepção intuitiva e mediata de uma presença. Mesmo que tenhamos um objeto puramente mental, ele ainda contém uma identidade ou fato de que uma premissa/proposição está contida numa presença.

Com isso podemos sintetizar as informações anteriores em alguns aspectos. Lembremo-nos da Morfologia da História que se aglomera nos conceitos Extensidade e Intensidade, de produto (como o que restou da história) e o produzir-se (como o que age contemporaneamente no tempo) desde dentro da Classificação da História.

Na Extensidade, se consideramos tudo dentro da alternativa espacial, veremos apenas as generalidades, o geral, o que se repete o que é espacial, e então, procederemos à explicação acima, com a Lógica Formal que se remete aos fatos. Já na Intensidade, precisaremos de uma dialética “intensista”, capaz de considerar os fatos em sua heterogeneidade. Em conclusão, o que é extensivo (espacializado) está condicionado à Lógica Formal, expressão do seu princípio de identidade. O que é intensivo (qualitativo) está condicionado a uma escala em graus, que não nos mostra o todo generalizado.

Para enxergarmos a história, necessitamos da averiguação de fontes primárias e secundárias, juntamente aos processos institucionais, religioso, a economia e seus dados e entre outros que, já formados de seu contexto histórico podemos reter um grande repertório de informações capazes de evidenciar suas conjunturas. O que, na verdade, não acontece com frequência é a investigação lógica extensiva e intensiva. Mas, afinal, se o conceito de história implica em sua irreversibilidade e logo teria de ter alguma lógica, por que a averiguação, o realce e o embate de fontes contrariantes, dão poder ao historiador – que já não tem formação intelectual suficiente para enxergar a lógica dos fatos – a utilizar uma metodologia que já implica na própria separação dos nexos historiais?

Isso acontece devido ao louvor e aplicação voluntária da metodocracia. Sendo incapazes de alçar e compreender conceitos elementares de sua própria formação, incorporar uma metodologia que efetive e facilite todo o trabalho analítico, é devidamente reconfortante para o historiador. E é exatamente por isso que temos, em muitas obras historiográficas, visões estereotipadas marxistas que cultuam a definir o objeto histórico, isto é – eufemisticamente – deturpando e mentindo descaradamente diante dos fatos.

Tal reverência, não atua na própria estrutura dos fatos. Eles nos evidenciam algo. A função do historiador não se trata de fazer alguma história, mas de conta-la e averiguar as fontes contrariantes sem a procura de uma solução prática que alguma metodologia ofereça. A razão, portanto, não está presente em sua base, mas na sua verdadeira conclusão. Não há como pensarmos objetos históricos inexistentes. Só existe essa possibilidade quando sabemos da existência factual de tal documento que nos evidencia o que aconteceu, seja ele pouco ou muito relevante, e isso já se torna o contrário da relatividade proposta pelas metodologias. Afinal, o objeto histórico já é essencialmente uma história, que por sua vez reflete acontecimentos, modos, costumes e mentalidades que mesmo existindo alguma outra fonte que aponte o contrário, alguma coisa aconteceu com aquilo e é objetivamente irrevogável.

Distinção Flexível dos Conceitos dos Fatos

Na busca de uma ontologia do histórico podemos apontar diversas coisas que o definem em sua base estrutural. Em todo fato que acontece, há a presença do passado. O acontecer é real. O ser histórico não é um mero nada, é objeto da disciplina que lhe é correspondente: A História in latu sensu. A princípio, essas caracterizações podem nos parecer tão óbvias que nem precisaria ser ditas. No entanto, se não obtivermos estas definições em mente, na explicação seguinte, provavelmente, o leitor perderá a atenção sem a opção de compreender o conceito.

A definição de “Sociedade” pode nos remeter a diversas interpretações. Seja uma espécie de generalização de conjunto dos interesses semelhantes, a língua no qual um indivíduo se comunica com o outro, ou até mesmo os modos de costumes que tal sociedade pode empenhar. Não obstante, talvez devêssemos analisar a definição de “sociedade” perante a história para que, futuramente, alguém possa empenhar algum estudo mais profundo a respeito.

Nós sabemos que a definição mais rasa do conceito de sociedade se dá pela generalização de conjunto dos interesses semelhantes de determinados indivíduos. Neste princípio, podemos perceber de que em tal conceito não se retém um objeto acuradamente descrito que possa nos evidenciar o que, de fato, é uma sociedade. Visto que há uma generalização, isso quer dizer que nos evidencia um aspecto quantitativo de determinado aspecto humano, que possa tender para mais ou para menos.

Mas, então, como percebemos a sociedade se ela, em sua estrutura íntima, não nos evidencia algum conceito científico-descritivo? Através da intuição em que a percebemos e, em seguida, tentamos produzir algum “conhecimento lógico” a respeito do objeto. O que, no entanto, não nos remete a nada, pois, se dissermos como pressuposto lógico: “Se é Brasileiro, logo ele fala Português”, e em seguida “Se fala Português, logo ele é Brasileiro”, o non-sequitur acontece pela própria generalização e por dentro de sua deficiência lógica. Isso acontece quase que indefinidamente nos estudos históricos, fazendo com que a simplicidade das análises se torne a ponta de lança para a interpretação de conjunto.

E, mesmo dentro da lógica, se tentamos compreender alguma “entidade social” caímos na impossibilidade de alcançar o objeto. Por exemplo: “Aquele grupo de indivíduos está falando Português, logo são Brasileiros”. Se aparecer um terceiro indivíduo e enunciar: “Prove!” você estará perdido em sua análise.

Fora isso, em todas as tentativas, como a de György Lukács – visto no capítulo da Historiografia Marxista – em buscar uma “ontologia do ser social”, apenas atestam a insuficiência metodológica e lógica de uma análise da sociedade. Ora, é possível que exista algum “Ser Social” propriamente dito? Ou seja, dentro desta indagação, existe algum indivíduo que somente se constitua “indivíduo” quando estiver dentro da sociedade? Ou, a sociedade lhe confere alguma essência/alma? Ou, a sociedade obtém uma alma própria? Se, todas essas afirmativas forem respondidas positivamente, estaremos excluindo o indivíduo por excelência e toda a sua essência e isso, filosoficamente, é a completa obtusidade.

É por isso que devemos, como historiadores, focar a história do indivíduo e não das massas. Tendo problemas na interpretação e logo forçando a subjetividade dentro da história, teremos problemas quase que infinitos quanto aos aspectos historiais. A história das ações políticas, econômicas, e filosóficas são muito mais importantes, assim como dito anteriormente. Afinal, a massa não retém poder algum, apenas o indivíduo que compreende seu poder de ação. E é por isso que a teoria de Karl Marx está completamente errada. Não é o Proletariado o agente da sociedade, ou as massas como agente da realização da história. Eles são apenas complementos e coadjuvantes dos reais acontecimentos. Relavam-se suas causas e efeitos, não como um processo de estabilização revolucionária ou agente de alguma ação, mas apenas como os “pormenores” da ação do indivíduo por excelência.

Mediante estas informações, creio que, se aprofundarmos nos indivíduos da história, aqueles que desempenharam reais mudanças e evoluções sem, é claro, excluirmos o corpo social de ação, as conclusões e os resultados obtidos serão muito mais gratificantes e importantes.

Por – Lucas Emmanuel Plaça

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