Resistiremos Até o Fim

Nas infindáveis tormentas das inquietantes noites que permeiam minha modesta e recatada vida, residem sérias malezas.  Assim, com minha mente tempestuosa, começo a me lembrar das infindáveis ruas desertas e bucólicas de minha cidade, que são tomadas por diversos transeuntes que vagueiam como cegos “zumbificados”, num puro reino do desconhecimento humano e de desgraça interior. “Nós somos os homens ocos”[1] que vagam desvairados e calados pela cidade insana e melancólica. Desta forma, observo sereno, calado e amedrontado, os inúmeros erros que habitam as ruas, avenidas, vielas, etc., de minha cidade.

Das inumeráveis mazelas que residem e agridem minha cidade, malezas estas que me atormentam e atentam profundamente contra mim, que chegam a rasgar meus olhos e minha mente como um louco desvairado, numa busca sanha por me matar, executam de modo desfigurado a perda da beleza, a perda da noção de estética arquitetônica, a perda da boa e velha simetria. Há infindáveis fachadas e mais fachadas que esboçam uma “força” para perfilar, mas não o possuem, ou nunca possuirão ânimo nem força para tal ato. Tentam, assim, de todas as formas se manterem de pé, mas sabem que estão em puro declínio. Assim, nas suas irregularidades horripilantes, negras fachadas, tortas e mal planejadas residências que há em minha cidade, elas atormentam e gritam desvairadas contra as pobres almas que vagueiam nas calçadas. As retas incertas e suas irregularidades possuem um “poder místico”, ao ponto de me deixarem ficar mui constrangido por observar o brutal e avassalador erro. O belo e o sublime definitivamente já estão inexistentes em minha cidade.

Há, assim, em minha cidade, uma “riqueza” vasta de almas atormentadas e zumbificadas pelo sistema que impera, e para muitas delas, esse sistema passa despercebido, algo quase que inexiste a elas nesse canto do mundo. Mas, essa legião de desavisados é obrigada a conviver amontoada, numa imposição severa e brutal, em outras palavras, essa legião é uma espécie de cortiço modernista democrático. “Ah, meu amigo! A infelicidade é uma doença contagiosa….”[2]. Essa ignóbil e infame vida dos desconhecidos e incautos cidadãos brasileiros dá uma tremenda repulsa nos acordados, nos incomodados, nos despertados, os quais olham atentos e tristes, esse indecoroso sistema forjado por Sauron[3].

Alastra-se, por causa disso, em minha mente, como água derramada sobre a mesa, essas ideias e sensações horríveis e tenebrosas, ideias que me atormentam incansavelmente, sempre me atacam quando eu resolvo adentrar nas ruas negras. Ao simples pisar no chão, já sinto uma profunda dor em meu corpo, já sou tomado por um mal-estar e tontura incontroláveis. Todavia, foi por causa dessas batidas costumeiras da vida, que me despertei para o real mundo. E nesse despertar, deram-me uma espada que, desde o primeiro dia, uso contra o mal que ronda e espreita a mim e a meu país. Muitas dessas asquerosas e vis criaturas malignas, que controlam as engrenagens carcomidas dessa máquina colossal e animal, jamais foram indagadas com a seguinte frase: “Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil[4]? ”

Se houvesse um modo de lhes indagar isso, todos, sem expressão, imediatamente fugiriam dessa indagação franca. Rumariam às catacumbas, ou atacariam seus indagadores. Pois a verdade, além de incomodar, reabre os ferimentos nessas criaturas. Os lacaios do regime maquiavélico tratam logo de empinar seus mastodônticos narizes, desfilando suas corcundas e seus corpos calejados e cansados pelos suntuosos corredores do Estamento Burocrático. Muitos desses vermes creem piamente que os pobres e inválidos devem viver e conviverem sempre juntos. Amontoados, jogados e esquecidos. Tais lacaios ditadores legam ao povo restos das migalhas e, para satisfazerem suas sedes, dão ao povo o chorume que escorre de suas fossas bocais. O mal e o horrível os distribuam sem moderação e atenção aos desgraçados. Já aos honrosos e amiguinhos do sistema, distribua a lei e a ostentação.

Mas, em meio a esse dificultoso transpassar da longa tormenta mental e espiritual, misteriosamente tudo cessa de súbito. A neblina que antes envolvia as ruas e minha mente dissipa-se misteriosamente. As sensações horríveis desaparecem do meu corpo. Então, eis que surge uma radiante e simples Igreja Católica. Não perco muito o meu tempo, adentro a Igreja, caminho pela nave central, e trato logo de ir me sentando. Sento em um de seus longos bancos, que fica bem perto do altar. E outro mistério surge em mim:  O choro. Desabo-me em profundas e incessantes lágrimas e mais lágrimas, junto com o tremor de ser culpado, de ser omisso, de ficar, às vezes, calado, quando deveria falar, falar e muito. Logo me dou o seguinte veredito: culpado. Compactuei indiretamente com o atual estado, vi e convivi com o atual estado, e acabei consentindo. O peso de consentir e de me calar vem num só golpe. Tento rapidamente enxugar minhas lágrimas, e nessa rápida e triste ação, levanto, aos poucos, minha cabeça, a fim de mirrar a Santa Imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

E começo a pensar comigo mesmo… quando o Santo Deus resolve sutilmente tocar as pessoas, um toque bem suave e muito certeiro, na quase totalidade das vezes, ele procura sempre tocá-las através de suas belas e sublimes obras. Sejam eles literárias, monumentos, milagres, ou mesmo pelas adversidades do cotidiano que há por aí e a beleza natural. Mas, quando você é tocado pelo Santo Deus através das adversidades do dia a dia, você é intimado a lutar, um chamado que te obriga a lutar pela restauração da normalidade. “O cristão, todavia, mesmo aquele que formalmente perdeu a Fé e vive fora da Igreja, não poderá ver impunemente o triunfo do mal. Reagirá, sempre, de um modo qualquer[5]“.

Desta forma, muito bem-feita e articulada por Deus, uma dessas obras toca-me profundamente, um toque inesquecível e revigorante para minha pobre alma. Esse toque foi relembrar a grandiosa obra: “O Senhor dos Anéis”[6], a monumental obra, baseada na Bíblia, escrita por nada mais nada menos que J. R. R. Tolkien. Se eu fosse tentar resumir a história da humanidade através dessas obras, certamente iria utilizar a esplendorosa passagem da épica batalha de Gandalf Vs Balrog.

Essa passagem se desenrolou da seguinte forma: Durante a travessia das Minas de Moria[7], onde o império da penumbra maligna alastrou-se e dominou, a sociedade do anel resolve adentrar nas minas e passar, cortando o caminho. Mas, infelizmente, não saiu tão bem como o planejado. Em Moria, travou-se uma das batalhas mais mortíferas e ferozes da Terra-média.  Um embate onde estava em jogo mais do que a autopreservação, mas sim a preservação dos seus semelhantes, a preservação de um mundo e de suas tradições. Assim, numa aventura homérica, o Grande Gandalf luta com todas as suas forças com um opoente descomunal, imensamente forte e poderoso. Mas o Cinzento não recua, não esmorece diante do seu algoz. Temer o mal, jamais! Luta até o fim de suas energias. E são dois os grandes ensinamentos que o Mago ensina aos atentos leitores: a) os verdadeiros guerreiros preferem tombar no campo de batalha do que ver sua terra devastada e arruinada pelo mal. b) Gandalf, no início da luta, profere uma das frases mais emblemáticas do épico: “You Shall Not Pass!”. Parafraseando, essa frase quer dizer o seguinte: Jamais alguém, em sã consciência, deixará o inimigo adentrar os portões do império. Não permitirá mal algum, em sua terra natal.

Já na tradição da civilização judaico-cristã, há uma frase de suma importância do Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a seguinte: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?[8]” Podemos, ao longo da vida, ou na maioria do tempo, (mas não todo o tempo de nossa existência) vagar no “vale das sombras”. O cristão, em hipótese alguma, deve temer mal algum, seja ele a face que assumir: islâmicos, socialistas/comunistas, heresias, modernismos, Nova-Era, etc, etc. (Poderíamos seguir essa lista infindavelmente, pois o mal prolifera e se multiplica sobre a face da terra, assumindo as mais variadas formas e configurações ideológicas, políticas, religiosas, secularistas, filosóficas, etc.). Mas, diante de tudo isso, o nosso dever é: Temer nunca, lutar sempre! “O cristão sabe que a história será sempre um tecido de males e bens, de luz e de sombras, e que no dia do Juízo é que o joio será separado do trigo. Até lá, ambos crescerão juntos[9]”.

Desgastante será insano e maligno, vai ser esse vagar rumo ao céu, rumo à libertação individual. Mas, só os verdadeiros combatentes, aqueles que possuem Fé, que são tementes ao Santo Deus e a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, aqueles que lutam todo santo dia, terão essa retribuição por todo esse tempo de combate. Ademais, vale ressaltar também o que o sapientíssimo Chesterton afirma: “quando os homens não acreditam em Deus, eles não passam a acreditar em nada; eles acreditam simplesmente em qualquer coisa[10]”.

Jamais devemos esquecer nossas origens, nossas verdadeiras bases morais, intelectuais e espirituais. As reais tradições estão aí, basta procurá-las e se investir delas.  E nunca se rebelar contra a Santa Igreja, pois só ela construiu essa magnífica civilização chamada de Civilização Ocidental.

E, antes que eu me esqueça, segue a definição do que nos une e nos convoca à luta como irmãos:  “O conservadorismo é a filosofia do vínculo afetivo. Estamos sentimentalmente ligados às coisas que amamos e que desejamos proteger contra a decadência. Sabemos, contudo, que tais coisas não podem durar para sempre. Enquanto isso devemos estudar os modos pelos quais podemos conservá-las durante todas as mudanças pelas quais devem inevitavelmente passar, de modo que nossas vidas continuem sendo vividas em um espírito de boa vontade e de gratidão[11]”.

Por: Salomão Campina

Bibliografia:

1. Trecho de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot.

2. Gente Pobre, de Fiodor Dostoievski.

3. Sauron é o o principal inimigo do Mundo, tal como foi seu antecessor. Sendo o principal promotor da desgraça na Terra-média.

4. Trecho de Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa.

5. O Elogio do Conservadorismo, de João Camilo de Oliveira Torres.

6. O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien.

7. O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, de  J. R. R. Tolkien.

8. Salmos 23:4.

9. O Elogio do Conservadorismo, de João Camilo de Oliveira Torres.

10. O Elogio do Conservadorismo, de João Camilo de Oliveira Torres.

11.  Como Ser um Conservador, de Sir Roger Scruton.

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