A Traquinagem de um Sociólogo Universitário – ou, um coprófago sinistro

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Em toda a vida de estudos, é evidente que em um determinado momento o indivíduo pode extrapolar o limite da utilização de conceitos prontos e estereotipados que, por sua vez, demonstra uma perturbação da própria mente quanto ao seu alcance de conhecimento; e que também demonstra, por fim, a incapacidade de alçar um passo à frente, forçando-o a encarar a realidade no mesmo clichê masturbado de escolas de pensamento ideológico ou ter de realizar uma autoanálise com a finalidade de enxergar suas contradições.

Esta última possibilidade já é descartada nos primeiros momentos de palpitação nervosa, ao deparar-se com outra modalidade, servindo como o famoso fenômeno da racionalização – que os psicólogos tanto falam – concomitante para com a resposta emocional a figuras de linguagem. Resta, única e exclusivamente, a mesma contínua atitude dos tagarelas e formadores de opinião – não tão recentes – que não têm nem conhecimento histórico muito menos filosófico suficiente.

Dos professores de Sociologia da educação, estes que formam as mentes dos futuros docentes e que atuam, sobretudo, nas universidades, usualmente utilizam alguns conceitos e definições científicas para afofar e aquecer um tipo de debate – dado por iniciado no final do século XIX e superestimado em meados do século XX – baseados, quase sempre, nas idéias Comtianas do Positivismo – não unicamente historiográfico de Leopold von Ranke – realizando, conjuntamente, uma espetacular exploração dos “avanços” filosóficos acadêmicos, a partir da Escola Analítica. Por uma coincidência cosmologicamente risória, este aproveitamento, esta sucção forçada de arcabouços filosóficos, foi exatamente o contrário daquilo que a sociologia positivista, dita “científica”, pregou anteriormente; lembremo-nos que dos problemas sociológicos e históricos pontuados a partir de Durkheim, por exemplo, através dos Franceses, assim como Meillet, nem sempre foram realmente problemas autênticos. O próprio Marcel Mauss, apesar de acreditar fielmente na idéia corrente de que as análises dos fenômenos sociais não poderiam dispor uma divisão — isto é, inclusive os fenômenos espirituais seriam pura obra humana, materialmente em exaustão – ao atestar a descrição do “Homo Duplex”, mostrou, conjuntamente, sua insuficiência científica, tendo de apelar a uma espécie de idéia da transcendência do indivíduo.

O que pretendo dizer com isto? Que a Sociologia (e até um pouco da História, mas esta não há espaço para pontuá-la devidamente), como matéria, repassada dentro das universidades, está falida, ultrapassada e, sobretudo, os critérios justificantes de sua utilização são os piores possíveis – dos quais, veremos mais adiante.

Vale salientar de que a distinção positivista histórica e sociológica sobre a elevação, evolução e o desenvolvimento dos conhecimentos e suas esferas, realizava a seguinte divisão: 1- “Teológico”, considerado como um dos conhecimentos mais fracos e estagnados da humanidade, justamente pela sua ligação intrínseca para com a Religião; 2- “Metafísico”, do qual, segundo Comte, “buscava um significado mais abstrato das coisas”, e “inventava conceitos” para, enfim, justificar determinadas ações; e por fim e considerado o mais importante 3- Positivo (Científico) que visa “extirpar as ideologias e as ocultações que a religião e a filosofia realizam” para, enfim, encontrar a realidade tal como ela é.

A “Sociologia como Ciência”, entendida dessa forma por vários de seus sucessores, seria, portanto, o suprassumo da consciência humana, do conhecimento e – em termos hegelianos – a “superação” e a “síntese” das outras esferas já tão enormemente ultrapassadas – isto que, no entanto, não há nada de verídico.

Uma das escolas mais importantes do pensamento historiográfico – apesar de ter uma relação muito íntima, quase “casória”, com esta modalidade positiva da sociologia – a Escola dos Annales, francesa, já tinha apontado a incongruência da perspectiva e a problemática anacrônica que, como sociologia e historiografia, o positivismo prosseguia com suas análises. Isto é, a visão “anacrônica”, nada mais é do que a extirpação da realidade historial e social, sustentada em uma visão e nos conceitos contemporâneos para sobrepor-se ao antigo, ao clássico, sobretudo às idéias predecessoras. Em um breve levantamento – do qual não há espaço para expor a coisa toda – podemos perceber algumas consequências notáveis do exemplo cabal dos estereótipos positivista-científico, resplandecidos dentro da nossa própria história; a República, por exemplo, com desdém, com uma arrogância imensurável, repartiu o Brasil em partes tão menos significativas no quesito da tradição, expondo um coeficiente de destruição política e cultural através de sistemáticas ditaduras e problemáticas econômicas em prazos tão curtos de uma só geração. Este é somente um dos exemplos que podemos citar da consequência do anacronismo puro e simples, mas é, de fato evidente, de que o único critério do qual a Sociologia positivista pode se sustentar, é na criação dos estereótipos contra o passado, e sustentando-se neles como se realmente fosse “a verdade revelada”.

Mas em matéria da metodologia, a história revela, por sua vez, mais do que sua insuficiência dilatada. Existe, assim como veremos uma descrição inusitada e muito interessante de um processo histórico intitulado de “Falso Divórcio da Ciência e Filosofia”, do qual, vale salientar por aqui, ao menos um pouco deste, pela modéstia dos srs. Professores e Sociólogos.

Em uma simples linha temporal a humanidade já em 1300-1400 na Europa, obteve um avanço surpreendente das tecnologias como base fundamental e alavancando o avanço da ciência. Desde Bacon e Galileu, Newton e Leibniz, têm-se uma penca de discussões acerca do método experimental, formada pelas qualidades primárias da “figura, extensão, movimento e número”, que serviram de A-Z, uma nova forma de linguagem compreensível dentro das próprias metodologias e dos círculos de cientistas. No entanto, o novo método não deixava de trazer consigo algumas dificuldades; o próprio Leibniz já havia notado que as “qualidades primárias” não eram suficientes para “produzir uma coisa, um ente real. Além de possuir figura, extensão, movimento e número […] o objeto precisava também ‘ser’ algo, possuir caracteres definidores internos que o diferenciassem, como gênero e espécie”. Em suma, a Ciência necessitava da própria Filosofia para resolver o problema; necessitava, por exemplo, daquilo que a escola aristotélica chamava de “Forma Inteligível”. No entanto, alavancando mais problemas, houve mais atenções voltadas ao método experimental por si mesmo – do qual, e por uma leva incontável de fatores, fizeram surgir o fenomenismo, a “bifurcação cartesiana” e aquilo que Olavo de Carvalho chama de Metodocracia” – do que ao próprio estatuto ontológico das coisas. Há de pensar que, neste momento, produzindo-se a suposta “divisão entre filosofia e ciência”, as idéias positivas da sociologia e da historiografia, por sua vez, teriam marcado o início da autossuficiência científica. Novamente, não foi isto que ocorreu.

Na passagem dos séculos, percebeu-se, em praticamente todas as áreas do conhecimento científico, mesmo levando em conta todos os amortecedores universitários produzidos pelo pensamento progressista, o choque da realidade. Max Weber, um dos maiores sociólogos do Ocidente, entendendo perfeitamente de que não poderia supor uma regra geral para todas as análises, já contabilizava – não diretamente – a insuficiência das abordagens sociológicas e históricas que, com o anacronismo exorbitante, erravam profundamente nas teorias hipnóticas dos hipotéticos futuros. Gyorgy Lukács, na tentativa de buscar uma “ontologia do ser social”; E. P. Thompson, no revisionismo marxista, e tantas outras teorias – desde a ciência política até a minuciosa ciência psicológica – evidenciaram a insuficiência de seus anteriores; quem dali fosse um bom estudioso, já poderia compreender a necessidade da “volta com a Filosofia”, um dos únicos campos necessários a dar voz e possibilidades para a ciência, podendo compreender, em concomitância, a impossibilidade de prosseguir com as idéias de uma “sociologia única e exclusivamente científica”. É um fato: Sem um objeto acuradamente descrito, já compreensível a partir das discussões filosóficas, é impossível ter uma ciência que possa progredir; a ciência histórica, por exemplo, nos últimos tempos, esteve em “processo de evolução” constante de uma forma que não está ligada senão à própria inspiração, e influência sofrida através da filosofia.

Mas, é com uma maquiagem desses fatores e de uma petulância incrédula de uma suposta “ciência”, que a sociologia universitária prossegue com suas análises completamente estereotipadas, devido aos seus princípios fundantes estarem todos marcados por defeitos inescrupulosos e negligentes no que tange a própria esfera da realidade. Um detalhe importante que deve ser registrado está na própria invalidação da premissa que a sociologia dita científica utiliza como escopo – do qual, demonstramos parcialmente agora pouco.

Com ares de superioridade, vindas de uma inconstância mental intolerável, a sociologia que lá é repassada adora fixar-se aos “elementos da sociedade” – como a Cultura, a Religião em si, os “estereótipos da nação”, e dentre outras coisas – da qual, para prosseguir com uma espécie de subversão ideológica bem prematura, faz da deturpação de conceitos e definições, ou a mera confusão obtusa, regra e obrigação moral número um do professor, a fim de encontrar um meio de criar um novo estereótipo. A idéia é – devemos reconhecer – genial para manipular a cabecinha dos alunos. Funciona da seguinte forma: Coletemos alguns elementos da sociedade, como a cultura e a “subcultura”, e ao invés de darmos a idéia de continuidade do processo elementar-historial do próprio denominador comum em que a nação se encontra – as tradições, por exemplo – inventamos um preconceito social, como se fosse evidente em todo o mundo, e criamos uma crítica estereotipada sobre o mesmo sem revelar que o fazemos.

Isso, para o leitor, deve parecer, realmente, mais um dos raciocínios metonímicos – a de enxergar coisas, causas e efeitos onde não existem – acompanhados de uma Paralaxe Cognitiva – neste caso, a de utilizar um estereótipo para criticar outro por si – que, presenciados em um debate ou em uma apresentação de uma palestra sã, deveriam ser expulsos a ponta pé, sem o direito de exclamar uma vírgula publicamente. Isto, não obstante, recheados de uma elipse argumentativa, com uma pitada de alguns conceitos científicos, soa aos ouvintes como se fosse à verdade revelada por Jesus Cristo. Não é preciso ler a obra “Imaginação Totalitária” (Razzo), para perceber do que realmente isto se trata.

O jogo linguístico torna-se uma das vias para tentar salvar uma pseudo-ciência de sua decadência e, inclusive, para manter o status de “professor-culto” acima de qualquer um que ouse contestar, ou meramente questionar, a salvação científica para as ideologias predominantes tão benevolentemente oferecida. Tudo isso, no fundo no fundo, trata-se de uma confusão que se deu por iniciado numa tentativa de sobrepor a idéia de “Cultura” e “Civilização” a um neologismo, já resolvido por Michael Bral em “Essai de Semantique (Science des significations)”; curiosamente, os dicionários franceses e portugueses contém a mesma similitude de significados de ambas as concepções. Uma confusão, um embate, por causa de um vocabulário sociológico e etnológico, que por definição, alcançam noções diferentes.

A Cultura, em contrapartida, não tem – para com estas falsas noções de definição e idéias incongruentes – a função básica de sintetizar a experiência real dos indivíduos em um denominador comum de tradições; o que é entendido, por estes, é uma espécie de “controle social” – exceto quando eles mesmos tentam fazê-lo. Aliás, a relativização da Cultura, ante o indivíduo dentro da sociedade, é uma das etapas a entrar em consenso com sua subversão, justamente para quando algum indivíduo bem intencionado evidenciar o erro sociológico, abrir portas para um refúgio metodológico para esconder sua contradição profunda. Em outras palavras, é a velha traquinagem do sociólogo – ou, o coprófago sinistro.

É o que acontece, por exemplo, quando se exclui a idéia de “indivíduo concreto” dentro de uma análise social. Um dos famosos fetiches dogmáticos que são proferidos a partir dessa modalidade da sociologia – e até no campo da história – a fim de esconder na metodologia sua real intenção, é a idéia de que “o homem é fruto do seu tempo”. Acontece que, por uma desgraçada falta de sorte, esta idéia nunca acertou suficientemente; pois, nem sempre, dentro da história, os indivíduos compactuavam com aquilo que estava proposto, ou instaurado diante de seus olhos. Um dos exemplos mais notáveis está na criação da universidade mesma, que representando inclemência e uma desordem interna imensurável, sendo-a como um dos critérios mais bem sugestivos daquele tempo, Tomás de Aquino, no entanto, mostrava-se contrário a ela em demasia. Isso sem contar outros, tão ou mais importantes da mesma “era” que não eram jamais frutos da conjuntura específica, mas, na verdade, completamente avessos a muitas coisas que ali ocorriam.

Não há espaço para expor completamente, nem mesmo explicar suficientemente, como que as estruturas sociais, as culturas e o indivíduo perante tudo isso, agem e modificam-se ao passar das décadas e dos séculos. Mas, se tem uma regra que é inegável, em todo o campo histórico e sociológico, é de que os indivíduos não são única e exclusivamente frutos de seu meio; não se pode excluir a psique, os sentimentos, as influências e as inspirações de outros tempos. Existem, sem sombra de dúvida, mais fatores históricos, simbólicos, intelectuais e culturais de outras esferas da história que podem – e são – absorvidas, interiorizadas, dentro de uma civilização, do que, uniformemente, na sociedade em critério de simplicidade. Isto é, a sociedade não é fruto dela mesma, ela tem uma história, uma continuidade; por esta razão, os indivíduos também não são fruto única e exclusivamente dela. Excluir as possibilidades de reencontro cultural, seja por uma via intelectual seja pelo próprio contato, é negligenciar um dos primeiros critérios historiais a serem estudados em sua complexidade.

Em suma, a “sociologia universitária” – ou a sociologia que passam nas universidades – nada mais é do que um fetiche, muito mal pensado, de campeões de punhetologia mental. Mas, sejamos mais compreensíveis com nossos companheiros que ali estão. Estes já não podem mais alcançar a verdade, pois, no fundo, estão marcados pela mentira. Esta é a figura mais comum dos professores universitários.

Por – Lucas Emmanuel Plaça

 

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