Suspensa no Sul, ‘Queermuseu’ pode reabrir em Belo Horizonte

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Proposta de reabertura da mostra foi levada ao secretário de Cultura de BH, Juca Ferreira

Cancelada no Santander Cultural, em Porto Alegre, a exposição “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira” pode reabrir a 1.700 quilômetros de distância da capital gaúcha. O curador Gaudêncio Fidelis disse nesta terça-feira que existe a possibilidade de levar a mostra para Belo Horizonte, por intermédio de pessoas ligadas ao presidente da Fundação Municipal de Cultura de BH, Juca Ferreira. Ex-ministro da Cultura dos governos Lula (2008-2011) e Dilma Rousseff (2015-2016), Ferreira diz ver a proposta “com simpatia”.

— Ainda não tive o contato com o curador, houve apenas uma ponte feita por uma pessoa que trabalha comigo, levantando esta possibilidade. Não há nada de concreto ainda, não sei se seria viável nem que espaço cultural da cidade poderia abrigar a exposição. Mas seria importante dar continuidade à mostra, e impedir que seja reaberta essa temporada de caça às artes, este retrocesso no setor — comenta o secretário de Cultura de Belo Horizonte.

VEJA MOSTRA LGBT FECHADA PELO SANTANDER CULTURAL, DEPOIS DE MUITOS PROTESTOS NAS REDES SOCIAIS

  • O Santander Cultural anunciou neste domingo o cancelamento da exposição “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, após protestos contra a mostra na instituição e nas redes sociais. Na foto, de Hudnilson Junior. Foto: Divulgação

  • Críticos da mostra afirmaram nas redes sociais que alguns dos quadros mostram “imoralidade”, “blasfêmia”, ”apologia à zoofilia” e ”pedofilia”. Os comentários contra a exposição viralizaram nas redes. Na foto, “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva”, de Fernando BarilFoto: Reprodução

  • As pinturas mais compartilhadas mostram a imagem de um Jesus Cristo com vários braços, crianças com as inscrições “Criança viada travesti da lambada” e “Criança viada deusa das águas” estampadas, além do desenho de uma pessoa tendo relação sexual com um animal. Travesti da lambada e deusa das águas é de 2013. O foto é de Bia Leite Foto: Reprodução

  • Em nota, o centro cultural afirmou ter entendido que as obras expostas “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”. Foto: Reprodução

  • Na época em que a exposição foi anunciada, o Santander informava que “valoriza a diversidade e investe em sua unidade de cultura no Sul do País para que ela seja contemporânea, plural e criativa”. “O Peso das Coisas”, de Sandro Ka, 2012. Foto: Divulgação

  • Aberta no dia 15 de agosto e prevista para acontecer até 8 de outubro, a “Queermuseu” contava com mais de 270 obras, oriundas de coleções públicas e privadas, que exploravam a diversidade de expressão de gênero. “O Halterofilista” (1989), de Fernando Baril. Foto: Reprodução

  • Entre os autores expostos na “Queermuseu”, estavam Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano e Ligia Clark. A mostra reunia pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos. Na foto, “Cenas do Interior II”, de Adriana Varejão. Foto: Divulgação

  • No Facebook, foi criado um evento de apoio à exposição, com um “ato pela liberdade de expressão artística e contra a LGBTfobia” marcado para a próxima terça-feira, no Centro Histórico de Porto Alegre. Foto: Divulgação

  • O curador Gaudêncio Fidelis diz ter sido pego de surpresa com o cancelamento da mostra: — Não fui consultado pelo Santander sobre o fechamento. Fiquei sabendo pelo Facebook. Logo em seguida, recebi uma rápida ligação da direção do museu, em que fui comunicado da decisão. Perguntaram se eu queria saber a opinião do banco sobre o assunto. Respondi que não precisava, uma vez que a nota divulgada já dizia tudo — disse. Na foto, ‘Eu e o Tu’, de Lygia Clark.Foto: Divulgação

Em seu perfil no Facebook, o ex-ministro criticou nesta segunda-feira a decisão do Santander Cultural de cancelar antecipadamente a mostra, comparando a pressão feita contra a exposição por grupos ligados ao MBL com a censura do regime militar: “Os ecos do golpe de 1964 não nos deixam esquecer a tragédia de 25 anos de uma ditadura que se concretizou a partir da fabricação de um ambiente de instabilidade política, moralismo exacerbado, manipulação midiática e ruptura da coesão social. Não podemos nos enganar. A história se repete”.

Na segunda-feira, o Banco Santander comunicou que irá devolver à Receita Federal os R$ 800 mil captados via Lei Rouanet para a realização da exposição.

Cumprindo uma série de compromissos com a imprensa, Gaudêncio Fidelis garantiu presença na manifestação contra a suspensão da exposição, marcada para esta terça-feira, às 15h30, em frente ao Santander Cultural, na qual também deverão comparecer os herdeiros de Lygia Clark (1920-1988), que tinha obras expostas na mostra. O curador não acredita que os protestos ou a repercussão negativa na imprensa possam fazer a instituição voltar atrás.

— Desde domingo, não fui procurado em nenhum momento pela instituição. Tudo o que sei vem da imprensa, mas ao que parece a decisão do Santander Cultural tem caráter irrevogável. Mas, mesmo que voltassem atrás, não sei se seria possível dar sequência à mostra depois do desrespeito demonstrado com a curadoria e os artistas selecionados. Acho que seria difícil seguir adiante — observa o curador.

Fonte – O Globo

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