A abordagem multifacetada do regime chinês para subverter a Austrália

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Partido Comunista Chinês emprega uma variante do pau-e-cenoura com sua ‘frente unida’ para subverter sociedades abertas.

Um dia, no final de maio de 2005, o enviado chinês Chen Yonglin reuniu sua esposa e filha, saiu do consulado chinês para as ruas de Sydney e desertou entregando-se às autoridades australianas.

Já desiludido pelos abusos generalizados dos direitos humanos cometidos pelo Partido Comunista Chinês, Chen Yonglin tinha más notícias para contar. A Austrália, disse ele, era o lar de mil espiões chineses. Dois anos depois, Chen deu extensas entrevistas ao Epoch Times, detalhando a campanha de propaganda, suborno, chantagem e subversão de Pequim para influenciar a grande diáspora sino-australiana em favor da agenda e dos interesses do regime chinês.

Desde então, as advertências de Chen Yonglin tornaram-se mais relevantes para os australianos e para a comunidade chinesa.

‘Invasão silenciosa’

Nos últimos anos, bilionários chineses com vínculos estreitos com o Partido Comunista Chinês (PCC) se tornaram grandes patrocinadores de políticos e lobistas australianos e realizaram campanhas em grande escala em toda a mídia e universidades voltadas à comunidade chinesa no estrangeiro.

À medida que o governo australiano se esforça para estudar os efeitos da influência de Pequim e impõe restrições à infiltração estrangeira em seu processo político, o discurso livre sobre o próprio fato da penetração do PCC na Austrália está sob pressão.

“Mesmo a minha liberdade na Austrália está cada vez mais ameaçada pelo ‘poder brando’ da China”, disse o professor Chongyi Feng, num artigo publicado na ABC News da Austrália. Feng é um forte crítico do regime chinês.

Anteriormente em 2017, Feng foi impedido de voltar à Austrália, onde ele vive, pelas autoridades chinesas quando foi visitar seus parentes na China. Ele só foi autorizado a retornar para casa apenas após ser submetido a um interrogatório sob o pretexto de auxiliar uma investigação legal.

Em novembro, um livro chamado “Invasão silenciosa: como a China está transformando a Austrália num Estado fantoche” teve o agendamento de sua publicação cancelado pela editora australiana Allen & Unwin.

Num e-mail pessoal para o autor Clive Hamilton, o presidente-executivo Robert Gorman admitiu: “Não tenho dúvidas de que o livro ‘Invasão Silenciosa’ é extremamente significativo”, mas que ele também estava preocupado com “potenciais ameaças ao livro e à companhia de possíveis reações de Pequim”.

A pedido do primeiro-ministro Malcolm Turnbull, a Organização Australiana de Inteligência de Segurança (ASIO) iniciou investigações sobre bilionários chineses conectados ao Partido Comunista Chinês que exercem influência entre os políticos australianos.

Num caso amplamente examinado, o senador do Partido Trabalhista, Sam Dastyari, contatou duas vezes as autoridades de imigração australianas para apoiar pessoalmente o doador e bilionário chinês Huang Xiangmo em sua candidatura à cidadania australiana.

Huang Xiangmo tem vínculos com o Partido Comunista Chinês por meio de várias organizações, incluindo seu papel como líder do ramo australiano de uma associação controlada pelo Partido Comunista Chinês que apoia a reunificação de Taiwan com a China continental sob o regime comunista.

‘Qiaowu’

Na década de 2000, quando o diplomata Chen Yonglin desertou em Sydney, ele descreveu em detalhes como os representantes do Partido Comunista Chinês que operam na Austrália e em outras nações são obrigados a promover ativamente a linha do Partido no que se refere aos grupos e indivíduos que o regime considera seus inimigos políticos, principalmente os exilados tibetanos, taiwaneses, muçulmanos uigures, ativistas da democracia e praticantes do Falun Gong.

Austrália, China, infiltração, subversão - Chen Yonglin, um ex-diplomata chinês que desertou para a Austrália e renunciou ao Partido Comunista Chinês em 2005, fala durante um evento em Sydney em 2015 (Shar Adams/The Epoch Times)

Chen Yonglin, um ex-diplomata chinês que desertou para a Austrália e renunciou ao Partido Comunista Chinês em 2005, fala durante um evento em Sydney em 2015 (Shar Adams/The Epoch Times)

A prática espiritual do Falun Gong, que foi submetida à maior campanha de perseguição comunista desde a Revolução Cultural (1966-1976), também se tornou um dos principais alvos de Pequim em suas iniciativas no exterior.

Enquanto os adeptos do Falun Gong que vivem fora da China têm sido ativos na condenação da perseguição do Partido à sua fé, a extensão da influência do regime na mídia chinesa na Austrália cerceou suas possibilidades de expressão pública, disse Chen Yonglin numa de suas entrevistas ao Epoch Times.

De acordo com o editor de uma mídia pró-Pequim que falou numa entrevista ao Sydney Morning Herald, “Quase 95% dos jornais chineses na Austrália foram abarcados pelo regime chinês em algum grau.”

Devido ao seu tamanho, prosperidade e posição geoestratégica, a Austrália é um importante alvo diplomático para o regime chinês.

Mas o Partido Comunista Chinês talvez esteja mais interessado em estabelecer o controle sobre a crescente comunidade sino-australiana para fortalecer seus esforços de “manutenção da estabilidade”, isto é, reprimir a dissidência social e política, no próprio país.

Conforme descrito no trabalho do especialista James To, Pequim atinge esses objetivos por meio de um conjunto de políticas conhecidas pela abreviatura chinesa de “qiaowu” ou “assuntos chineses no exterior”.

Em 2014, um estudante chinês chamado Tony Chang deixou seu país para estudar na Austrália. Chang estava na lista de vigilância do Partido. Em 2008, quando ele tinha 14 anos, ele foi preso por hastear bandeiras de independência pró-Taiwan em sua cidade natal. Conforme relatado pela ABC News, ele foi questionado pelas autoridades no início de 2014, um evento que parcialmente motivou sua decisão de ir para o exterior.

Residindo na Austrália, Chang intensificou seu ativismo político. Em resposta, os agentes de segurança chineses capturaram seus pais, que ainda viviam em sua cidade natal de Shenyang, no Nordeste da China, para uma rodada de questionamentos num estabelecimento de chá.

“Os agentes enfatizaram o ponto que meus pais deveriam me pressionar para que eu parasse o que estava fazendo e ficasse quieto”, disse Chang numa declaração às autoridades australianas.

Chang é apenas um dos mais de 1,2 milhão de chineses ou pessoas de ascendência chinesa que vivem na Austrália, um número que quase dobrou desde 2006. Muitos dos recém-chegados provêm da China continental e já estão imersos na cultura política do Partido Comunista. Um grande número de associações universitárias vinculadas a estabelecimentos consulares chineses levam cerca de 100 mil estudantes de intercâmbio chineses para a Austrália sob a égide do Partido.

Medidas coercivas

Embora o Partido Comunista prefira estabelecer uma frente unida – ou seja, uma rede de influência e controle político idealizada pelo líder comunista soviético Vladimir Lenin – entre os chineses australianos, indivíduos como Tony Chang requerem o que o especialista James To chamou de “medidas coercivas”.

De acordo com a ABC News, a líder estudantil chinesa pró-Pequim Lupine Lu “enfatizou a importância de bloquear manifestantes anticomunistas”.

Para a comunidade chinesa australiana, os riscos associados à expressão de opiniões dissidentes ou simpatia por essas significam que muitos permanecem apolíticos ou calados. Como o exemplo do prof. Chongyi Feng, que foi detido e interrogado ao visitar a China por causa de suas opiniões dissidentes. Pequim e suas operações consulares exercem pressão considerável ​​para persuadir os chineses no estrangeiro a se submeterem.

Em junho de 2005, pouco depois da deserção de Chen Yonglin, o ex-policial chinês Hao Fengjun corroborou as alegações de Chen de que a sociedade australiana foi grandemente penetrada por espiões chineses. Como ex-membro da Agência 610, um órgão de inteligência do Partido Comunista Chinês encarregado de lidar com o Falun Gong, ele confirmou que Pequim também visava as minorias étnicas e religiosas no exterior além de persegui-las na China.

“O controle da comunidade chinesa no exterior tem sido uma estratégia consistente do Partido Comunista Chinês e é o resultado do planejamento e gerenciamento minucioso durante dezenas de anos”, disse Chen Yonglin. “Isso não ocorre apenas na Austrália. Isso também é se dá em outros países, como nos EUA e no Canadá, por exemplo.”

Fonte – Epoch Times

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